quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Tokyo!



Três histórias fantasiosas formam Tokyo!, um longa-metragem em forma de rapsódia, produzido a seis mãos pelos diretores franceses Michel Gondry e Leos Carax junto ao coreano Joon-ho Bong.



A cidade é a fonte inspiradora para uma mistura ficcional que não teria sentido caso presente em outra metrópole, já que em Tóquio tudo parece possível. Michel Gondry, reconhecido diretor de videoclipes malucos e de longas como Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e Rebobine, Por Favor, apresenta Interior Design, a história de um jovem casal, recém chegado à cidade. Quando a garota percebe sua dificuldade de adaptação, começa a sofrer uma radical transformação que lhe dará sentido a vida.



Em Marde, de Leos Carax, uma estranha criatura humana destruidora sai dos esgotos da cidade, mas sua captura leva todos a um debate em torno de sua pena. Por fim, Shaking Tokyo, de Joon-ho Bong, diretor de longas de terror como O Hospeiro. Nesta última narrativa, conhecemos a vida de um hikikomori, pessoa que opta pelo total isolamento social, que mora sozinho há dez anos, sem sair de casa.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

entre a luz e a sombra




Em 160 minutos de duração, o documentário Entre a Luz e a Sombra caminha por diferentes histórias, que estão conectadas entre si. Entre os anos 2000 e 2007, a diretora Luciana Burlamaqui acompanhou a vida da atriz Sophia Bisilliat, que desde a década de 1980 dava aula de teatro aos detentos do Carandiru e buscava talentos escondidos dentro das celas do complexo.



Foi assim que conheceu Dexter e Afro-X, integrantes da dupla de rap 509-E, famosa por ter conseguido autorização judicial para realizar shows fora da cadeira. Essas duas trajetórias se unificam quando Sophia e Dexter começam um relacionamento e ela passa a ser empresária da banda. Quando o casal rompe, começa também mais uma narrativa dentro do filme, onde ficam claras pequenas disputas pessoais, entre o casal e também entre os membros da banda.



A mescla de tantas histórias, filmadas ao longo de sete anos, pode deixar Entre a Luz e a Sombra parecer um tanto sem rumo. Mas o documentário se desenrola de maneira interessante não só por mostrar os regimentos internos do Carandiru, já amplamente explorados em outros longas, mas por dar voz a homens e mulheres que lutam, de diferentes formas, pela reintegração a sociedade.



Amigos de infância, Dexter e Afro-X já não formam mais o 509-E, que terminou pouco depois de Afro-X conseguir liberdade, em 2003, mas ambos continuam como forças ativas dentro do cenário hip hop brasileiro, sendo por meio da música ou ações sociais.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009

do começo ao fim



Muito se falou na internet sobre o longa-metragem Do Começo ao Fim, de Aluízio Abranches, devido a junção de temas polêmicos em seu argumento. Mas sua estreia, realizada no último dia 27, pode decepcionar. Dois irmãos, de pais diferentes, crescem juntos e nutrem um amor fraternal exagerado.

O resultado desta relação homossexual e incestuosa teria rendido um filme de intrigas, discussões e preconceito. Ao contrário, a história de amor de Francisco e Thomas (João Gabriel Vasconcelos e Rafael Cardoso) é forrada de clichês românticos, zero dramaticidade e uma perseguição pela naturalidade que chega a incomodar.

A mãe dos garotos (Julia Lemmertz) é alertada pelos pais, interpretados por Fabio Assunção e Jean-Pierre Noher, sobre a relação dos filhos. Sem querer interferir, age com singeleza, assim como todos em volta dos garotos. A construção de uma relação polêmica onde não existe nenhuma dificuldade soa falsa. E, apesar da beleza dos meninos, algumas cenas de nudez fora de contexto chegam a constranger.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009

tocaia - de maringoni

Apaixonado por aviação e observador da vida na cidade, o jornalista e quadrinista Gilberto Maringoni mistura temáticas em Tocaia, lançamento que reúne quatorze histórias produzidas entre 1989 e 2002. Bem humoradas ou aventureiras, as histórias de Maringoni são cheias de personagens curiosos, com diferentes estilos e trajetórias de vida. às vezes, faz de si mesmo o protagonista de suas histórias.

No conto que dá nome ao livro, um matador de aluguel espera o momento de entrar em ação, enquanto conversa com o leitor. Prepara-se para o ataque, em um quarto de hotel. Segue para o local combinado, sem sucesso.

Na história Gente como a gente, uma um rapaz sofre com o trânsito na Av. São João, em São Paulo, numa narrativa bem humorada. Ele seria mais um em meio a todos os paulistanos, não fosse pelo elevado Minhocão que passa exatamente dentro de sua sala de estar. Enquanto assiste TV, conversa com motoristas, ajuda na troca de pneus e irrita-se com o caos paulistano, que termina quando a Companhia de Tráfego fecha a passagem.

Com fantasia ou não, a cidade de São Paulo é também personagem em algumas tramas. Nos capítulos finais, Longa Jornada Eu ADentro e Avoadoras, reservam detalhadas histórias autobiográficas e sobre aviação.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Marcel Gautherot



Em 1939, quando chegou ao Brasil pela primeira vez, o parisiense Marcelo Gautherot presenciou daqui o estouro da Segunda Guerra Mundial. Então radicado no Brasil, deu início a uma série de viagens onde fotografou paisagens e cenas cotidianas do norte e nordeste brasileiro.



Permaneceu no País até sua morte, no Rio de Janeiro, em 1996. Parte do resultado dessas e outras imagens produzidas durante as décadas posteriores em que viveu no Brasil estão presentes na mostra Marcel Gautherot – Norte, realizada pelo Instituto Moreira Salles, mantenedor de todo seu acervo, com mais de 25 mil imagens.



Sob curadoria de Miltom Hatoum e Samuel Titan Jr., a exposição reúne toda uma produção voltada para a Amazônia, onde os personagens são pescadores ou boiadeiros e paisagens são típicas casas de madeira a margem de rios. Em imagens em preto e branco, o fotógrafo abandona o olhar europeu e penetra na paisagem brasileira, de maneira aventureira e sensível. O MIS lança ainda livro homônimo que reúne 72 fotografias e texto dos curadores.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009

cidadão boilesen



Vencedor da 14ª edição do Festival de Documentários É Tudo Verdade, Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, gira em torno de um tema propositalmente quase esquecido, a participação de grandes empresários no financiamento das ações do exército durante a ditadura. O principal deles, e figura central deste longa, foi Henning Albert Boilesen, dinamarquês naturalizado brasileiro, presidente da Ultragáz na década de 1960.

No longa-metragem, Litewski aborda o tema de maneira interessante, com trilha sonora animada e edição moderna, que ajudam a suavizar o conteúdo. Resultado de pesquisa extensa, a trajetória de Boilesen é contada desde a infância, com a ajuda de arquivos escolares municipais, que revelavam, desde cedo, uma personalidade dúbia. Conhecido por amigos como pessoa bem humorada, um líder nato, Boilesen por vezes era cruel e frio, um sádico. Chegou ao Brasil pobre, mas rapidamente, e por méritos próprios, se tornou presidente de uma das maiores companhias da época. Freqüentava colunas sociais, adorava grandes bailes, caipirinhas e mulatas.

Anticomunista, teria sido responsável e maior entusiasta da “caixinha” que circulava entre os empresários brasileiros – sobretudo paulistanos – que deveria financiar a Operação Bandeirante, organizada pelo exército. Boilesen teria participado pessoalmente de sessões de tortura, sendo responsável por trazer ao País um aparelho de choques elétricos mais moderno, tempos depois conhecido como Pianola Boilesen.

Por meio de depoimentos bastante diferenciados, Cidadão Boilesen traça um perfil do empresário até sua morte, em 1971, quando fora encurralado e executado por militantes da ANL e MRT em uma rua próxima a Avenida Paulista, em São Paulo. Carlos Eugênio Paz, líder da ação e um dos poucos sobreviventes do grupo, fala com detalhes sobre o dia da morte do empresário. O depoimento de ex-militares, políticos, religiosos, guerrilheiros, amigos e parentes estão mesclados a cenas de ficção de longas como Pra frente Brasil, de Roberto Farias e Lamarca, de Sérgio Rezende. A narrativa por vezes deixa escapar, sutilmente, um quê de ironia, resultado da fala descuidada de alguns entrevistados.
terça-feira, 24 de novembro de 2009

polícia, adjetivo



O policial Cristi vive de observar um grupo de adolescentes que saem da escola e se encontram para fumar haxixe. De longe, caminha lentamente, persegue bitucas de cigarro que os garotos deixam para trás, procura alguma prova de que ali estejam mais do que usuários.

O longa-metragem romeno Polícia, Adjetivo, de Corneliu Porumboiu, trata de tédio, voyeurismo e instituições hierárquicas, onde o funcionário é obrigado a cumprir papéis indesejáveis. É o caso de Cristi, interpretado por Dragos Bucur, que discorda de prender em flagrante os jovens maconheiros. As entediantes perseguições, que são boa parte do filme, ajudam o espectador a perceber um também entediante estilo de vida, onde a personagem não tem voz.

A cena que dá título ao longa, e a que vale toda espera, é de humor sutil e inteligente. Intrigado com a ordem de prisão dos adolescentes, Cristi se reúne com o chefe de polícia. Este, munido com dicionário, quer ensinar ao subordinado o real sentido das palavras consciência e polícia.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O poder da míni

A história o leitor já conhece. Geisy Arruda, 20 anos, a loira do vestido curto da Universidade Bandeirante (Uniban), é notícia desde 22 de outubro, quando teve de sair do campus da faculdade escoltada pela polícia, sob xingamentos e vaias dos colegas. Imagens gravadas pelo celular e difundidas pela internet tornaram Geisy o centro das atenções, assunto dos mais comentados no Twitter, tema de música de axé no YouTube, além de notícia constante em incansáveis jornais, sites e programas de tevê. Está, inclusive, na mira da Playboy. “Deu no New York Times”, diria Jorge Ben. E deu também no Guardian, do Reino Unido, no americano Examiner e no Pakistan News. Este último, de fato intrigado, devido à fama dos microbiquínis brasileiros. Geisy tornou-se uma espécie de Maria Madalena moderna. Os puros que atirem a primeira pedra.

Expulsa e reintegrada à universidade em menos de 48 horas, Geisy motivou protestos por parte de militâncias feministas e estudantis. Um deles, realizado em frente à instituição na segunda-feira 9, reuniu associações de amparo à mulher, cujas representantes, de microfone em punho em cima do trio elétrico, gritavam sem sucesso. Dos manifestantes presentes, muitas mulheres, donas de casa, senhoras e alguns garotos. Raros eram os alunos da Uniban. A maioria dos estudantes na proximidade do protesto, em parte protegida pelas grades, mantinha o discurso agressivo, vaiando e repetindo a postura vista contra Geisy no dia 22.

Estudantes da Uniban, hoje preocupados com a imagem que terão num futuro próximo, participam do protesto de maneira bairrista, sem parecer entender a discussão sugerida pela turma do trio elétrico. Maria Fernanda Marcelino, militante da Marcha Mundial das Mulheres, é uma delas. “Queríamos abrir um debate sobre como deveriam refletir e não deixar propagar um tipo de comportamento que para a sociedade é muito danoso.” Segundo Maria Fernanda, a decisão de expulsar a garota de vestido curto remete a um senso comum que justifica a violência contra a mulher. Como se a culpa por uma agressão, independentemente de suas circunstâncias, fosse sempre da agredida. “Acredito que a Uniban tenha dado um recado péssimo, do tipo ‘homens continuem agredindo mulheres, a responsabilidade é sua’”, diz a integrante da ONG Sempreviva Organização Feminista. A militante diz ter tido apoio de alunas que temem expressá-lo por temerem ser prejudicadas de alguma forma. “Quando depreciamos a faculdade, questionamos o futuro dessas pessoas.”

Apesar de presente em grande número, a maioria das alunas mulheres não parece se preocupar com a discussão de direitos feministas. Querem, assim como o restante dos alunos, enxovalhar a garota do vestido rosa. Como se o caso de Geisy tivesse se transformado numa enorme rede de intrigas e fofocas, onde não só a universidade mas o País inteiro pudesse opinar. Não foram poucos os xingamentos ouvidos durante a manifestação, em que estava presente Letícia Quinello, aluna de Pedagogia. “Só a gente viu essa menina levantando o vestido e mostrando a bunda com a calcinha pra fora. Essa ideia de sensacionalismo só leva a crer que o brasileiro é burro”, diz a aluna de 27 anos, trajada com terninho e saia reta na altura dos joelhos. A amiga de curso, Letícia Longuinho, de 19 anos, conta que Geisy mandava beijos, mostrava os seios e posava para fotos antes e durante a confusão. “Muitas meninas vêm de saia curta, não vamos ser hipócritas. Mas é maneira de se comportar? Se fosse eu, mesmo de saia curta, não ia me portar como celebridade, mas como alguém que quer respeito.”

Depois de reintegrar a aluna, a Uniban decidiu transferir a turma de Geisy para outro prédio do campus, mais afastado. Em entrevista coletiva, Ellis Brown, vice-reitor, ofereceu apoio e segurança necessários à volta da garota, que não frequenta as aulas desde o ocorrido. Na manifestação da segunda, Pedro Lessi, um dos advogados de Geisy, gritava a plenos pulmões em cima do trio elétrico que faria de tudo para fechar a Uniban, que “não dá tratamento digno ao ser humano”. Esta imagem rendeu à universidade o apelido de Unitaleban, em referência à milícia extremista islâmica.

O advogado defendia firmemente a segurança da mulher. Ao avistar a apresentadora Sabrina Sato, que gravava matéria para o programa humorístico Pânico na TV, debochou dos alunos que não teriam coragem de censurar o vestido da famosa. “Seus covardes”, gritava. “Isso afeta a Constituição Federal, a lei foi rasgada. Geisy foi vítima da ardilosidade de homens totalmente despreparados para a sociedade. E esses diretores que voltaram atrás na decisão da expulsão não têm caráter nem personalidade. Deveriam ser banidos do ensino no Brasil”, disse um pouco depois à CartaCapital.

Quietas em um dos cantos da manifestação, as estudantes de Moda Stephanie Gusmão e Zan, de 21 e 27 anos, estavam atentas aos discursos, sem achar necessária a euforia do momento. “A mulher lutou muitos anos pela liberdade a favor da minissaia e agora a ‘mina’ vem assim e é tratada como lixo? Sou a favor da liberdade, cada um anda como quer e se não concorda, venha diferente”, diz Zan. Pacíficas e bem-humoradas, sugerem uma manifestação de impacto. Que tal, a favor da liberdade, todas retirarem suas mínis do armário?
terça-feira, 17 de novembro de 2009

é tudo mais ou menos verdade

Nova compilação de Allan Sieber traz narrativas inspiradas na vida real

É tudo mais ou menos verdade
Ed. Desiderata, 128 págs, R$ 49,90

Para grandes cartunistas, a verdade é mais interessante que a ficção. Se aproveitada de maneira correta, a narrativa de um fato banal pode tornar-se interessante, engraçada, à maneira de Robert Crumb e Harvey Pekar. Inspirado por esses, e outros, o gaúcho Allan Sieber olha em volta em busca de observações cotidianas que o fazem refletir sobre uma boa história. Sarcástico e inteligente, o humor de Sieber zomba conosco, aproveita as brechas sujas e incoerentes da sociedade para nos fazer rir. É, acima de tudo, atento a detalhes, às piadas prontas. Em seu novo livro, É tudo mais ou menos verdade, reúne histórias mais longas que as usuais tiras, algumas inéditas outras encomendadas e publicadas por diversos veículos. “Os pequenos detalhes bobos, quando contados de maneira interessante, se tornam interessante”, disse em conversa por telefone.

“Jornalismo investigativo, tendencioso e ficcional de Allan Sieber” é o subtítulo que entrega ao leitor o tom das narrativas. Mais como um observador, o cartunista vai cobrir eventos como o Fashion Rio, onde observa o backstage de desfiles, penetra em festas fashionistas e conta piadas que ninguém entende. Também no Rio de Janeiro, cidade onde mora hoje, acompanha um tour pela favela, feita para turistas. No grupo, argentinos irritantes e uma guia turística sem noção. Foi no Rio também, que Sieber descobriu o paradeiro de Adolfo Hitler, o Seu Dodô, morador do bairro do Leblon, fã das rodas de samba da Lapa.

“As pessoas tendem a achar que as histórias são muito exageradas, mas 90 por cento das coisas aconteceram. Mas sempre há pequenas omissões”, diz Sieber. Na série Memórias Alheias, cria pequenas histórias inspiradas por casos impensáveis de amigos, ou inimigos. “É uma motivação poder me vingar dessa maneira”, diz sobre os últimos. “Sei de pessoas que se reconheceram nas histórias, mas nunca me falaram nada e não tive nenhum tipo de problema”.

Sieber é fruto de uma geração criativa, ao lado de outros bons cartunistas e amigos como Arnaldo Branco e André Dahmer. Ao contrário dos dois, porém, não gosta de passar horas no Twitter e sabe, muito mal, atualizar seu blog, onde posta com certa freqüência. “É uma ferramenta genial, mas ainda acho estranho. Parece que as pessoas perderam a divisão entre o publico e o privado”, diz o cartunista que tem como personagem principal ele próprio.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009

haicai

De origem japonesa, a forma poética haicai consiste originalmente em três pequenos versos, de cinco, sete e cinco silabas. Muito difundido em seu país de origem, pouco foi estudado no Brasil, mas não por isso deixou de ser representado por grandes nomes da literatura de língua portuguesa.

Adaptado ou seguido à risca, o haicai brasileiro está reunido na compilação Boa Companhia, Haicai, organizado por Rodolfo Witzig Guttilla, que há mais de 25 anos estuda o estilo.


Inspirados, Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade relatam cenas curtas e bem humoradas. Monteiro Lobato, o primeiro a aderir ao estilo, em 1906, prefere a forma clássica e faz versos sobre a natureza. Erico Verissmo, Paulo Leminsk, Luis Aranha, Millôr Fernandes e outros também estão na reunião
quinta-feira, 12 de novembro de 2009

carlos vergara e a dimensão gráfica


Adepto a experimentações, o gaúcho Carlos Vergara produziu extenso acervo onde se mostra interessado em trabalhar além da pintura. Criando sobreposições em telas, fotografias ou instalações, consegue migrar de suportes sem perder a forte presença de grafismos e cores.


Os grafismos são parte essencial da produção deste aluno de Iberê Camargo e inspiração para a mostra Carlos Vergara – A Dimensão Gráfica, que o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro recebe a partir do dia 12. Um conjunto de mais de 200 peças demonstra a linguagem do artista em monotipias, gravuras, desenhos, fotografias, telas e instalações, realizadas desde os anos 1960 até hoje.


Algumas peças retiradas do acervo do próprio curador e colecionador Georges Kornis. “Vergara não é somente um pintor. Uma fotografia pode se desenvolver em serigrafia, que por sua vez poderá se tornar uma pintura. Esta é sua grande alquimia”, diz Kornis, que optou por separar a mostra em quatro núcleos de observação, organizados em torno de temas diversos.
terça-feira, 10 de novembro de 2009

brecheret indígena


Lembrado essencialmente por obras de teor clássico ou romântico, o ítalo brasileiro Victor Brecheret também criou esculturas inspiradas em nos regionalismos nacionais, embora estas não sejam responsáveis pela fama do artista. Em terracota, madeira e pedra Brecheret deu forma a figuras indígenas que remetem ao primitivismo e a deuses antepassados.

Parte da vontade de abrasileirar sua produção teria vindo do amigo Mário de Andrade, que o aconselhou a estudar tribos indígenas. Criadas nesta fase, 24 esculturas e 23 desenhos com artes pictográficos estão reunidas na mostra A Arte Indígena de Vitor Brecheret, inaugurada na Caixa Cultural São Paulo, em cartaz até janeiro de 2010. Entre as peças, três grandes pedras que juntas narram a história de uma índia e um peixe, aliando escultura e gravura em uma só obra. Brecheret teria achado as três pedras à beira de uma praia do nordeste brasileiro e arrastado-as até a areia.

Nos desenhos, imagens que lembram escrituras antigas, como inscrições feitas na em ocas ou cavernas. Em exposição a obras Índio e a Suaçuapara, premiada como melhor escultura nacional na 1ª Bienal de Arte de São Paulo, em 1951.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009

a elegância de woody allen



Há quem ame e quem odeie o quê caricatural que consagrou o humorista, diretor e roteirista Woody Allen. Em muitos de seus mais de 40 longas-metragens, ele criou e interpretou o mesmo personagem, muitos dizem, o dele próprio. Controverso, neurótico, criativo crítico da sociedade americana, Allen é mestre da comédia, ao mesmo tempo em que flerta com o suspense e os dramas, quase sempre envoltos em desequilibradas tramas conjugais.

Desde 1966, produz praticamente um filme por ano. Quarenta dessas produções estão na mostra A Elegância de Woody Allen, apresentada pelo Centro Cultural Banco do Brasil, do Rio, entre os dias 3 e 29 de novembro. A vasta programação, que se estende ao CCBB de São Paulo a partir do dia 18, é um prato cheio aos fãs do cineasta, além de constituir excelente porta de entrada aos menos familiarizados com o estilo do autor. Entre as projeções, todas exibidas em película, está o novo longa do diretor, Tudo Pode Dar Certo, previsto para lançamento no Brasil somente ano que vem.

Há também marcos iniciais da carreira de Allen, como seu primeiro longa O Que Há, Tigresa?, de 1966, além de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo Mas Tinha Medo de Perguntar (1972) e Manhattan (1979). Realizações da recente “fase europeia” do diretor, como Match Point (2005) e Vicky Cristina Barcelona (2008), também serão exibidos, mas o que faz a mostra ser ainda mais atrativa são aqueles que complementam a filmografia de Allen.

Meetin’ WA (1986), de Jean-Luc Godard, reconta a história do cineasta americano, lançado no mesmo ano de Hannah e Suas Irmãs, enquanto Wild Man Blues (1997) acompanha uma turnê de Allen e sua banda de jazz. Ainda hoje, a Eddie Davis New Orleans Jazz Band reúne-se às segundas-férias no Café Carlyle, em Manhattan, com Allen nos clarinetes. A mostra apresenta também longas nos quais não teve participação na produção ou direção, mas atuou em papéis de destaque como Company Man (2000), de Perter Askin e Douglas McGrath e Rei Lear (1987), de Godard.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009

salve geral - nos cinemas

Em maio de 2006, a cidade de São Paulo se viu sitiada pelos ataques do Primeiro Comando da Capital, o PCC, que agia em resposta a transferência inesperada de mais de 700 presos para a penitenciária de segurança máxima de Presidente Bernardes, incluindo líderes da facção. O episódio recente, e possivelmente fresco na memória da população, volta à tona no longa-metragem Salve Geral,de Sérgio Rezende, em cartaz nos cinemas.

Ficção baseada em realidade, o filme usa o episódio ocorrido na capital para discutir sobre a organização sistema penitenciário brasileiro e as relações entre governo e facção, no filme chamada de Partido. Coincidentemente, seu lançamento ocorre na mesma época em que se inicia o julgamento de Marcos Camacho, o Marcola, e Júlio César de Moraes, o Julinho Carambola, apontados como líderes do PCC.

O diretor carioca inspirou-se no episódio paulista para fazer a sua espécie de alerta, ou mesmo, mostrar sua porção de indignação. “Guardadas as proporções, este episódio foi o nosso 11 de Setembro. Revelou o descontrole absoluto e caótico em que nós vivemos e todas as contradições da sociedade brasileira”, disse Rezende à CartaCapital.

Salve Geral narra também a história de Lúcia (Andrea Beltrão), uma professora de piano que, ao ter o filho preso, conhece a advogada Ruiva, (Denise Weinberg, em excelente atuação) e se envolve diretamente com o Partido. Faz pequenos favores, a fim de conseguir vantagens para o filho. As relações entre Partido e governo e o andamento das negociações para o cessar dos ataques são pontos altos do longa.

Usando uma das falas da personagem de Beltrão, Rezende se mostra desapontado com a própria sociedade. “Lucia diz que sempre que sempre que está com medo, fecha os olhos. Mas estas questões estão longe de serem superadas e são responsabilidade de todos. A única maneira de solucionar, ou começar a solucionar, é encarar”, acredita. Mais que um filme sobre uma facção, Salve Geral é trata da perda de controle. Seja sobre uma cidade, um presídio ou a própria razão.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009

nos becos do limpão

No bairro do Jardim Limpão, Daniel Melim ensina jovens a grafitar

É em direção a uma estreita viela, na entrada do bairro do Jardim Limpão, em São Bernardo do Campo, que Daniel Melim se dirige, carregando material que traz no porta-malas de seu carro. Num caixote de supermercado estão latas de tinta, sprays coloridos, pincéis e estênceis. São poucos, comparados aos que o artista usa em seu atelier, localizado a metros dali, mas suficiente para fazer a alegria de uma molecada que o avista de longe e chega pulando para cumprimentar. Há quatro anos, Melim desenvolve no bairro que viu crescer o Projeto Comunidade Limpão, que tenta voltar a atenção dos jovens e crianças para a arte, usando como base principal o grafite.

Em uma espécie de workshop improvisado, numa manhã de domingo, o artista reúne algumas crianças e começa a planejar, com elas, a nova fachada da sede da comunidade. O lugar, um pequeno quadrado com banheiro, é também a base do Centro de Capoeira Angola Angoleiro Sim Senhô, onde ao mesmo tempo, Fabio Almeida, conhecido como Preto, ensina um grupo a montar um xequeré, um dos instrumentos de percussão usados nas rodas de capoeira. Cenas como estas, repetidas em fins de semana no Limpão, se tornaram rotina para a comunidade, assim como para Melim, artista em progressiva ascensão no hoje cobiçado mundo da chamada street art.

Foi no Jardim Leblon, também em São Bernardo, que começou a trajetória como artista. Trabalhou como motorista quando jovem, deu aula de pintura em escolas públicas e hoje, aos 29 anos, já expôs em mostras no Brasil e no exterior e é representado por uma importante galeria em São Paulo, a Choque Cultural, especializada em arte contemporânea. Um de seus últimos trabalhos está hoje em Londres. Convidado pela ONG Action for Brazil’s Children, que tem como patronos figurões do showbussiness, como o guitarrista Jimmy Page e o cineasta Fernando Meirelles, Melim customizou uma cobiçada guitarra da marca Gibson. O objeto, junto com outros 11 feitos por outros artistas, será leiloado em breve.

Se Melim já é um nome conhecido para os modernos e entendidos, ali, para as crianças do Limpão, é o boa gente que vem ensinar como trabalhar com uma técnica antes marginalizada. Começando a pintura de base na parede da sede, Lucas, de 14 anos, Rafael, 12, Rodrigo, 15, e Gabriel, 9, discutem o tema que deverá emergir do velho muro.

“O símbolo do Corinthians!”, alguém grita. “Não fala besteira, menino”, retruca o professor. De maneira muito natural e improvisada, Melim guia os garotos, ensina o processo e os deixa trabalharem sozinhos. Mostra como segurar um rolo de tinta, explica as diferenças entre os diversos tamanhos de bicos do spray e ajuda a montar a idéia geral do projeto. O grupo é pequeno, para evitar bagunça. Ainda assim, o artista precisa chamar atenção dos insistentes, que tentam, em vão, usar os sprays para “pichar” o muro da frente. E coitado de alguém que usar a palavra pichação. “Aqui ninguém picha”, diz Melim, que é imediatamente respeitado. Um dos rebeldes acaba escapando e vai pintar um poste com o que sobrou de tinta vermelha num rolinho. Tudo bem.

Encostadas nas proximidades, outras crianças observam e tentam chegar para ajudar. Hoje não, mas fica pra próxima. O material, todo bancado pelo artista, só é suficiente para pintar a sede, mas a parede ao lado, cedida pelo dono do bar vizinho, já está reservada para a próxima intervenção. Outras crianças trabalharão nesse dia. A pintura das vielas, muros e fachadas de casa só funciona com a autorização dos donos das casas. “Aqui tem muitos evangélicos e eles não gostam das figuras. Normalmente acham que é coisa do diabo”, explica Melim.

Do lado de fora, é possível ouvir o barulho do batuque que vem de dentro da casa. Fabio Almeida, o Preto, está ensinando um grupo a montar um xequeré, instrumento africano que custa em média 100 reais, mas que no workshop do Limpão, o morador aprende a fazer e leva pra casa. Na cozinha improvisada, um fogão de duas bocas esquenta uma panela de pressão cheia de canjica. “Tentamos resgatar a cultura africana, através da música, da capoeira e da culinária. É a nossa essência”, diz Preto, ao mesmo tempo em que mostra a repórter como construir o instrumento. Para o professor de capoeira, pernambucano de 31 anos, que há 8 trabalha e mora no Limpão, a maior dificuldade não é ensinar as crianças, mas seus pais. “É difícil formar a identidade dos pequenos, quando eles saem daqui ouvindo o canto das lavadeiras e voltam para casa para ouvir funk que os pais ouvem”. Preto conta que se teve noção de sua responsabilidade junto as crianças no dia em que um garoto o viu tomando cerveja em um churrasco. “Você é um mentiroso! Ensina a gente não beber, e está aí, com a latinha na mão”, foi a bronca do garoto. Depois disso, parou de beber. E o garoto, hoje com 13 anos, é Caíque, um dos mais experientes e promissores da roda de capoeira.

A sede não é, contudo, freqüentada só por moradores. A professora Roberta Costa, de 29 anos, ouviu de seus vizinhos que ali eram dadas aulas de capoeira e resolveu conhecer. Assídua no local há pouco mais de dois meses, ela traz o filho Flavio, de 4 anos. O garoto é um dos mais empolgados quando ouve o som do berimbau e arrisca alguns passos que vem aprendendo nas aulas. “Ele só fala disso, adora vir aqui. E tenho aprendido coisas de raiz que posso também levar pros meus alunos”, conta a professora da rede pública que ensaia uma dança africana para os alunos colocarem em prática na próxima festa junina.

Do lado de fora, o muro está quase pronto. Enquanto Lucas saca um aparelho de MP3 e ouve funk carioca, do tipo “proibidão”, Rodrigo, o mais velho da turma, termina uma parte do stencil. A técnica muito usada na arte de rua e consiste em usar uma espécie de forma para delimitar traçados. Com o muro pronto, Melim saca a câmera e faz fotos. Todos querem mostrar os dedos sujos de tintas, orgulhosos do trabalho que terminaram, depois de mais ou menos quatro horas de pintura. “Tentamos fugir da idéia de deixar a favela ‘mais bonita’. Queremos sim, humanizar os becos, trazer as crianças para perto de nós e deixá-los cada vez mais longe do tráfico”, diz Melim. Há cerca de quatro anos dando continuidade ao projeto Comunidade Limpão, Melim, Preto e os outros organizadores dessa pequena sede ainda encontram dificuldades para conseguir apoio. Tentam, pelos próprios meios, agir de maneira independente. O desejo antigo de montar uma ONG, que receba doações de maneira legal, julgam ser um processo burocrático demais. Mas que aos poucos começa a tomar forma. Enquanto isso, nos fins de semana do Limpão, faça chuva ou faça sol, a garotada segue aprendendo o que lhes é ensinado. Mesmo que seja misturando o funk com o afoxé.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009

balaiada

Histórias de um Brasil longínquo, normalmente reservadas aos livros escolares, tem sido inspiradoras para a criação de bons exemplares de histórias em quadrinhos. Exemplos recentes são os álbuns Os brasileiros, de André Toral, que narra em pequenas histórias a saga indígena no Brasil colonial, ou O Cabeleira, de Leandro Assis e Hiroshi Maeda, biografia do personagem homônimo, um dos primeiros bandoleiros nordestinos, temido anos antes de Lampião.

São, em sua maioria, narrativas inspiradas em fatos verídicos que, ao serem transportadas ao universo dos quadrinhos, ganham aura de aventura e tornam-se atrativas mesmo a leitores pouco familiarizados com o estilo. Recém lançado, o livro Balaiada – A Guerra do Maranhão (Dupla Criação, 82 págs) entra neste pacote e é resultado de um projeto concluído a seis mãos. Com roteiro do historiador Iramir Araújo e ilustrado por Ronilson Freire e Beto Nicácio, narra a eclosão da Balaiada, movimento popular que mobilizou homens livres e escravos contra a chamada Lei dos Prefeitos, na então província do Maranhão, em 1838. Lutavam, sobretudo, contra o abuso de poder escravocrata das classes políticas locais. Foram derrotados, após anos de combate com soldados da corte imperial, e seus líderes presos ou assinados.


Os quadros em preto e branco, que narram disputas e batalhas com precisão, foram divididos entre os desenhistas. Apesar de semelhantes, é possível perceber e comparar a diferença de traços entre Freire e Nicácio.
terça-feira, 4 de agosto de 2009

almoço de agosto


Faz calor no fim do verão e a cidade de Roma ainda vê passar alguns turistas. Giovanni é um homem de meia idade e mora com a mãe idosa, a quem cuida com devoção e paciência. As dívidas com o condomínio aumentam e ele aceita a proposta de seu síndico, que lhe ofereceu um abono de pagamentos caso hospedasse sua mãe durante o feriado de Ferragosto.

Só não esperava que a troca, mesmo breve, o traria tanta dor de cabeça. A senhora vem acompanhada. E depois dela, outra. Daí pra frente, o espectador de Almoço de Agosto, estreia do próximo dia 7, acompanha o dia a dia de Gianni em companhia de senhoras um tanto teimosas e cheias de manias. Horários, remédios e vinho branco para tudo. O longa-metragem italiano é dirigido pelo protagonista Gianni di Gregório, estreante nesta função e um dos roteiristas do premiado Gomorra (2008).

Baseando-se em sua própria história, Gregório faz um retrato bem humorado da terceira idade, ao mesmo tempo em que expõe as aflições de um filho cuja principal ocupação é cuidar da própria mãe. O verão e a culinária italiana são dois coadjuvantes de peso, que ajudam a deixar ainda mais graciosa a comédia.
quarta-feira, 29 de julho de 2009

abstrato por necessidade ou revelação tardia

Publico aqui uma matéria que saiu na CartaCapital nº 553 e que gostei bastante de fazer. Recebi tbm alguns comentários bacanas de leitores e isso é sempre bom! =)
Depois vou tentar subir algumas imagens tbm!

Abstrato por necessidade

Quase cego, André Carneio expõe suas fotografias, tão inquietantes quanto sua obra de ficção científica

POR CAMILA ALAM

Aos 87 anos, o escritor André Carneiro tem muitas histórias para contar. Difícil é a tarefa de selecionar episódios e causos a serem narrados. Diz-se poeta, mas tem uma trajetória multifacetada. É um artista que flui com naturalidade entre diversos campos de atuação e brinca com letras, pincéis e câmeras. Ele fez cinema, fotografia, pintura. Escreveu livros, de prosa e poesia, pesquisou a parapsicologia, foi hipnólogo. Assume as tantas profissões com bom humor. “Sou um fenômeno artístico”, diz, rindo.

Nome essencial na produção literária de ficção científica, autor de Confissões do Inexplicável (2007) e Amorquia (1991), Carneiro nunca se preocupou em divulgar os negativos que guardava em casa, separados por caixas, etiquetados. Sua produção como fotógrafo está exposta pela primeira vez em São Paulo, em novo espaço cultural chamado Pantemporâneo. Para chegar até sua exposição, Carneiro sobe alguns andares do prédio em um elevador panorâmico. Acha um pouco assustador. “É o medo da imaginação”, diz.

A mostra Fotografias Achadas, Perdidas e Construídas resume 58 anos de um lado de Carneiro que ficou praticamente esquecido. Não por um desejo consciente, mas por não se considerar profissional ou por ter focado com demasiada paixão em suas outras produções.

Integrante da chamada Geração de 45, era amigo do escritor Oswald de Andrade, que, segundo ele, se queixava de uma atuação isolada e abandonada. “O grande público achava que o modernismo era uma bobagem. A fotografia artística era considerada uma arte secundária ou documentária. Mas ela transformou a criação estética do artista na época.”

Algumas das imagens do autor foram consideradas essenciais para a formação da fotografia modernista. Uma delas é Trilhos, de 1951, em que Carneiro observa, do alto, uma sequência vazia de linhas de bondes curvas e brilhantes, ornada por alguns poucos pedestres. Em outras imagens, ele põe o olhar sobre o cotidiano, observa passantes em preto e branco ou registra coloridos nus que, posteriormente, recorta para fazer montagens.

Juntamente com a exposição, Carneiro lança um livro-catálogo em que mistura as fotografias expostas com outras históricas. Estabelece relações entre a fotografia e o cinema, ou a poesia, e relembra algumas passagens da vida em que as fotos foram marcantes. Muitas delas vividas ainda na época da ditadura, quando escapou de ser preso algumas vezes. Pouco tempo depois do golpe de 1964, morava em Atibaia, interior de São Paulo, na casa de um guerrilheiro espanhol que havia sido condenado à morte por Francisco Franco, na Espanha. Raspou o bigode que adornava a face e mudou de nome. Por algum tempo, se chamou Augusto.

Em um congresso de escritores, realizado em Brasília, foi convidado a conhecer o general Costa e Silva, a quem deveria agradecer pelo auxílio oficial concedido ao evento. “Distraidamente levei até ele minha pequena câmera fotográfica, que não era russa”, relembra Carneiro. Mas não foi necessário utilizá-la. A um fotógrafo oficial coube a função de registrar o aperto de mão entre ele e o general. Daquele dia em diante, passou a carregar a foto do encontro na bagagem. “Um sujeito cumprimentado pelo presidente deveria significar bom rapaz.” A imagem o liberou certa vez de uma batida. Ele apresentou a foto aos policiais, que, cochichando entre si, permitiram sua liberação, “com as mãos úmidas e sem nenhuma acusação”.

Se a fotografia já o livrou de apuros, também lhe causou alguns tormentos. Nada que resultasse em prisão, no máximo uma discussão entre vizinhos. Carneiro costumava fazer nus. Na janela de seu apartamento, em São Paulo, usava manequins e modelos que, captados pela luz solar, refletiam a cor dourada. Numa tarde, a vizinha do prédio da frente sentiu-se horrorizada com o que via. Depois de intrigas, reclamações e contratempos na vizinhança, resolveu instalar na janela um papel opaco, como proteção para as imagens. “Brinquei dizendo que iria escrever do lado de fora: “Agora vocês perderam o espetáculo”.

Apesar de falar com humor e satisfação sobre seu trabalho, Carneiro deixa transparecer decepção. Depois de mais de 60 anos de carreira, sabe que seu nome, seja como escritor, poeta ou fotógrafo, é pouco conhecido. “Não sou muito lido, não. Faço com total dedicação toda arte, mas a consequência disso é a pobreza. Pensam que eu ganho um dinheirão, mas ganho um dinheirinho”, diz, transparecendo um misto de humor e tristeza.

Carneiro é do time de Nelson Rodrigues. Defende que o povo brasileiro possui o chamado complexo de vira-lata. Certa síndrome de inferioridade que não torna possível o elogio à própria terra, costumes ou tradições. Do ponto de vista artístico, acredita haver uma “falsa invasão de conhecimento”. “O brasileiro detesta confessar que não sabe. Existe uma atitude interessante, típica e bastante explicativa em suas consequências. É o que denominamos gozação.” Carneiro diz que até hoje tem um pouco de receio de se declarar artista, escritor, poeta ou fotógrafo. “A gozação declina para a desvalorização, um ataque sutil à posição do intelectual”, diz.

Hoje, tem cerca de 10% de visão e, em razão do problema, pouco fotografa. Realiza, entretanto, alguns autorretratos e quadros abstratos com base de vidro. Diz que chegou à abstração não por evolução natural, mas por necessidade. “Minha visão tem defeitos, meu cérebro inventa coisas que não existem, principalmente à noite. Meus quadros e fotos abstratos são arbitrários e questionam por si mesmos.” Fotógrafo modernista, pintor contemporâneo e criador de histórias fabulosas, Carneiro agora é revisto por completo. E, inventor bem-humorado, dá ao leitor o seguinte conselho: “Se eu não falei algo, você pode inventar”.
terça-feira, 28 de julho de 2009

celebração, de harold pinter



O clima é de comemoração em um restaurante sofisticado. Em uma primeira mesa, o casal Julie (Domingas Person) e Lambert (Carlos Morelli) festeja o aniversário de casamento, acompanhado dos cunhados Prue (Valentina Lattuada), irmã dela, e Matt (Luciano Gatti), irmão dele. Na mesa ao lado, Russel (Alexandre Freitas) brinda a ascensão profissional ao lado de sua esposa Suki (Juliana Vedovato).

Por trás da aparência de harmonia, diálogos são trocas de farpas sutis. Tendo suas vidas entrelaçadas, afloram revelações ou segredos, expostos numa batalha elegante onde a boa educação permite levar desaforos para casa. Último texto do dramaturgo britânico Harold Pinter, morto ano passado, a comédia Celebração ganha primeira montagem brasileira, dirigida por Eric Lenate, em cartaz no Teatro Cultura Inglesa, em São Paulo.

Pinter, um dos maiores representantes do teatro do absurdo, cria situações cômicas em um texto atemporal, ao mesmo tempo em que faz o público debater sobre relações de conveniência e futilidades. Denise Machado, Pedro Guilherme, Adriano Suto, Cristine Perón também estão no ótimo elenco, formado por ex e atuais atores do CPT de Antunes Filho.

foto: Bia Ferrer
segunda-feira, 27 de julho de 2009

paul strand, olhar direto



Com olhar imediato e registro direto, o fotógrafo nova-iorquino Paul Strand foi um dos responsáveis por transformar a fotografia em arte, no começo do século XX. Tendo a cidade natal, então em ebulição, como uma de suas personagens preferidas, Strand registrou cenas de cotidiano, prédios em construção e cenas típicas de uma metrópole industrial em formação.


Sua produção mais consagrada são fotografias em preto e branco, realizadas entre as décadas de 1910 e 1920, marcantes pelo registro histórico, caráter vanguardista e estética abstracionista. Fugindo do macartismo americano, Strand mudou-se para França, no final da década de 1940, onde produziu, sobretudo, retratos de comunidades locais.


Mais de cem imagens, produzidas durante esses dois períodos, estarão reunidas no Museu Lasar Segall na mostra Olhar direto, realizada em parceria com o Instituto Moreira Salles, em São Paulo. Strand teve uma longa produção de documentários. Um dos primeiros deles, o curta-metragem Manhatta, foi realizado em parceria com o também fotógrafo e pintor Charles Sheeler. O filme narra um dia na metrópole americana e estará na mostra, em apresentação continua.
Essa imagem é meu papel de parede aqui na redação. Traria uma paz se não tivesse forrada de ícones por cima.. rs..