terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

salve jorge!


A primeira década da carreira de Joge Ben Jor é relançada em CD na caixa Salve Jorge!, que contém boa parte dos sucessos da carreira do cantor, naquela época ainda Jorge Ben. A caixa contém 14 álbuns, todos pertencentes ao acervo da antiga gravadora Philips brasileira, gravados entre 1963 e 1976, entre eles um duplo com raridades e versões inéditas, como a do hino do Flamengo, time do coração.

A caixa Salve Jorge! é mais do que uma compilação, mas um resgate a uma fase celebrada de sua carreira e lembrada ainda hoje por dezenas de hits, entre eles Mas que Nada, Chove Chuva, Balança Pema, lançados ainda no primeiro disco Samba Esquema Novo (1963). Sacudin Bem Samba (1964), Força Bruta (1970), Negro é Lindo (1971) e A Tabua Esmeralda (1974) também são frutos desta fase, sendo este último considerado por muitos o melhor álbum da carreira do cantor. Produto de um período em que Ben Jor se aproximou da filosofia, alquimia e temas holísticos, são deste álbum as místicas e também clássicas Os alquimistas estão chegando, O homem da gravata florida e Magnólia.

Junto com Gilberto Gil, em 1975, lançou Gil & Jorge Ogum Xangô, disco experimental quase raro, fruto de uma jam session na casa do executivo André Midani. Comemorando este lançamento e os quase cinqüenta anos de carreira, Ben Jor faz show em São Paulo, no Credicard Hall, dia 27 de fevereiro.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Movimento dos sem-cor

Agora que volta a discussão sobre a liberação das camaras de bronzeamento artificial, acho oportuno colocar aqui uma matéria que fiz em dezembro do ano passado, quando a Justiça tinha proibido esta técnica de bronzeamento. Na época estavam acontecendo alguns protestos em São Paulo e Porto Alegre e é a matéria fala sobre estas manifestações. A seguir:


O movimento dos sem cor

POR CAMILA ALAM

O vão livre do Museu de Arte de São Paulo, na Avenida Paulista, costuma ser ponto de encontro de manifestantes. Não seria pra menos. O lugar é grande, ventilado, protege contra o sol. Este foi também o local escolhido para homens e mulheres protestarem contra a proibição do bronzeamento artificial, na segunda-feira 30. Já passava do meio-dia, mas sol, para eles, só de mentira.

No último dia 11 de novembro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu o uso das câmaras de bronzeamento para fins estéticos. Segue uma recomendação da Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer, ligada a Organização Mundial de Saúde. Segundo as pesquisas, a quantidade de raios ultravioletas saída das câmaras artificiais é oito vezes maior do que aquela emitida pelo sol em um horário considerado de risco para a pele. A chance de desenvolvimento de câncer de pele, como o melanoma, aumentaria 75% em pessoas de até 35 anos que usam o procedimento.

A faixa etária, porém, não é unânime na manifestação, que também ocorreu uma semana antes em Porto Alegre. Homens e mulheres, idades diversas, seguravam cartazes com os dizeres “Amo bronzeamento, isso é crime?” ou “O mundo libera e o Brazil (sic) proíbe?”, “Anvisa, cadê as provas?”. Rapazes musculosos, alguns trajando camiseta do Clube das Mulheres, senhoras meio “peruas” e adolescentes com vestimenta praiana também estavam presentes. Todos com a cor do verão. Alguns branquelos também, é justo dizer. Outros, mais agressivos, apelavam para o “Lula colocou um ditador na Anvisa” e ainda “Voltamos à Ditadura”. Seria a revolução em marcha?

Não se sabe ao certo qual a idéia ou lembrança de ditadura que estes manifestantes têm em mente. Mas o grito de guerra entoado pelos presentes era firme: “bronze, bronze, bronze”. Uma loira de pele morena puxava coro e intrigava alguns passantes desavisados que custavam a perceber que não se tratava de comemoração de pódio. A loira é a modelo Renata Banhara, conhecida por estampar capas de revistas masculinas. “Respeito a decisão da Anvisa, mas discordo em absoluto. O Brasil não pode ser ignorante assim, no mundo inteiro é aceito. O que a OMS está fazendo é um estudo, que ainda não foi validado. Eu desacredito”, disse dias depois à CartaCapital.

“É um procedimento de alto risco para um resultado questionável. Gera todo um trabalho de vigilância sanitária, que, por mais fiscalização que se tenha, não vai eliminar os riscos aos quais as pessoas ficam expostas”, disse Dirceu Barbano, diretor da Anvisa, em entrevista coletiva na qual anunciou a decisão da agência. “Não se conseguiu comprovar nenhum benefício que justificasse a manutenção no mercado de um produto que comprovadamente causa câncer”, completou. Além disso, a agência não dava conta da fiscalização dos mais de 5 mil aparelhos de bronzeamento existentes no País. Pesquisa da OMS mostra também que a falta de manutenção pode agravar a situação do cliente. Com lâmpadas velhas, a emissão de radiação e o tempo no interior da câmara são maiores.

À margem das manifestações, muitos estabelecimentos no Brasil, prevendo a decisão da Anvisa e atentos às discussões que acontecem há algum tempo, resolveram trocar o procedimento a laser pelo chamado a jato, que funciona com um aplicador de loção bronzeadora na camada superficial da pele. Uma espécie de tinta que dura alguns dias na pele. Algumas das clínicas de São Paulo conhecidas pelas câmeras de luz nem sequer atendem telefone, para evitar as multas da Anvisa que variam de 2,5 mil a 1,5 milhão de reais.

Também presente na manifestação estava Ticiana Pires, proprietária de uma clínica de estética no bairro Vila Marina, em São Paulo. Ao portal de notícias G1, ela disse estar tendo prejuízo com o estabelecimento e que atualmente atende somente clientes com solicitação médica, pois a Anvisa liberou a emissão de radiação ultravioleta para tratamentos médicos ou odontológicos. "Nessa época do ano, costumávamos fazer 80 sessões por dia. Agora, estamos fazendo sete ou oito. Minha clínica tem 21 empregados. O que vai acontecer com eles?", disse.

Para a dermatologista Carla Vidal, dona de uma clínica de tratamento e estética em São Paulo, que não oferece procedimentos de bronzeamento, a decisão da Anvisa demorou a chegar. “A câmara de bronzeamento tem o uso indiscriminado no Brasil. Estava mais do que na hora de ser proibida, já que ela leva ao envelhecimento precoce da pele, que se transforma quase em couro, com rugas e flacidez”.

Há onze anos a Sociedade Brasileira de Dermatologia, que apóia a decisão da Anvisa, faz campanha contra o câncer de pele, alertando para o uso de filtro solar. Recentemente, a Associação Brasileira de Defesa do Consumidor realizou testes que colocam em xeque a formulação e a eficiência de alguns protetores solares comercializados no Brasil. Os resultados foram ignorados pela SBD, que afirma desconhecer os padrões de testes utilizados pela associação. Com ou sem manifestação, os dias das câmaras de bronzeamento artificial estão contados no Brasil. Para a tristeza de paulistanos e gaúchos.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Sherlock Holmes


Esqueça o estereotipo do detive sabichão, o assistente roliço e também o mais famoso dos bordões. O Sherlock Holmes de Guy Ritchie, estréia do dia 08, é movido à pólvora e explosões. A Londres vitoriana parece cenário moderno já que nesta versão, diferente de outras adaptações, Holmes faz a linha herói. É exímio lutador, charmoso e engraçado. Ao mesmo tempo, infantil e dependente de seu fiel escudeiro, Dr. Watson, o que motivou piadinhas em relação a sexualidade do detive. Robert Downey Jr. e Jude Law formam esta dupla que pode parecer improvável, mas funciona. É um dos atrativos do longa que cheira franquia.


Este Holmes não veste ternos de tweed. Ao contrário, tira a camisa para encarar uma luta clandestina que, explorada em câmera lenta logo nas primeiras cenas, deixa clara a marca de Ritchie como diretor que, quando acerta, faz memoráveis cenas de ação. No enredo, a magia negra é o mote para as ações do vilão Lorde Blackwood (Mark Strong), suspeito de envolvimento em uma série de assassinatos. Para resolver os casos, a agilidade e astúcia do personagem permanecem intactas, apesar da modernização do personagem, agora um inteligente bon vivant. Ao lado de Holmes e Watson está Irene, interpretada por Rachel Adams.


Ela é o ponto fraco do detive, uma espécie de ladra que em algum momento passa a ser mocinha. Ritchie faz a usual mistura de ação com comicidade e, apoiado em boas atuações, entrega ao público mais de duas horas de diversão.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

eles adoram o sistema*


Fotos: Olga Vlahou

Já não é novidade que a arte feita nas ruas cada vez mais salta dos muros e becos das grandes cidades para ser inserida nos ambientes antes tidos como tradicionais, como galerias, leilões e museus. O que se convencionou chamar de grafite, ou street art, ou arte de rua, avança para outras nomenclaturas, se auto-intitula arte contemporânea e, ainda mais, vanguardista.

Está, de fato, mais difícil distinguir ou definir a arte inspirada nas ruas, aquela que nasceu nas sessões de skate e hip hop. Mas está também mais fácil reconhecer sua importância no cenário das artes contemporâneas atuais, dentro e fora do Brasil. Exemplo mais recente disto é a mostra De dentro da Fora / De Fora pra Dentro, inaugurada no dia 20 de novembro, no Museu de Arte de São Paulo, o MASP.

A exposição reúne, no subsolo do museu, seis grandes artistas que levam consigo a fama de “grafiteiros”. São eles Carlos Dias, Daniel Melim, Ramon Martins, Stephan Doitschinoff, Titi Freak e Zezão, todos reconhecidos internacionalmente, que ocupam mais de 1500 metros quadrados do maior museu da América Latina com instalações, pinturas e fotografias. Acostumados a expor em galerias e participarem de feiras internacionais, veem no MASP uma experiência única, de completo diálogo entre a arte que produzem e a sociedade. “O público em geral, o pessoal das escolas, não freqüenta galerias. Esta exposição é importante para que eles vejam a produção contemporânea, esta que está sendo produzida agora”, diz Stephan Doitschinoff.

Trazer esta arte contemporânea ao maior museu da América Latina é resultado de muito suor destes e outros artistas, mas é também um trabalho de equipe que vem sendo feito há anos, que ganhou força particularmente nos últimos cinco. Os curadores da exposição Baixo Ribeiro, Eduardo Saretta e Mariana Martins tem um papel fundamental na ampliação da visibilidade da street art como objeto consumo, para apreciação e coleção. Reunidos há seis anos, criaram a Choque Cultural, galeria referência no estilo que hoje faz exposições temporárias, mas também ajuda a manter o ritmo de produção de artistas já consagrados. Além disso, conseguem impulsionar o trabalho de novos representantes e, principalmente, incentivam a criação de jovens colecionadores, para que estes possam formar a base que sustenta a linha de produção de cada artista.

“Acreditamos que a primeira instância de reconhecimento do artista é o colecionador e tentamos criar um núcleo sistemático para cada artista. Só assim ele tem suporte pra fazer projetos mais audaciosos, evoluir, continuar trabalhando na rua, o que quiser”, diz Baixo Ribeiro, que criou o conceito da galeria em 2003, junto com Mariana Martins, sua mulher, e Eduardo Saretta. O que começou como um escritório para venda e impressão de cartazes alternativos, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, se tornou, em pouco tempo, uma galeria respeitada que já tem braços voltados essencialmente a colecionadores. Com históricos pessoais voltados a arte e criação, os três juntos parecem se complementar. Baixo e Mariana são casados desde que cursavam Arquitetura na USP. Antes da galeria, ele trabalhava com moda streetwear, onde criava roupas e shapes de skate, num universo totalmente ligado à arte urbana. Mariana sempre viveu próxima às artes plásticas nacionais, sendo responsável pelo legado de um dos maiores artistas brasileiros, seu pai, Aldemir Martins.

Numa época em que a internet começava a difundir novos artistas e a espalhar ainda mais o conceito de arte urbana, o casal conheceu Saretta, por meio dos fotologs, ferramentas muito populares no começo da década 2000. Historiador, ligado ao coletivo SHN, que espalha serigrafias, adesivos e posters pelas cidades de São Paulo, Saretta incorporou ainda mais ao grupo a forte vivência das ruas. “Nos juntamos por afinidade, interesse e naturalidade. Hoje eu sei a importância que esta exposição tem e consigo também enxergar o legado que cada um carrega”, diz. Para Saretta, o próprio Aldemir Martins ajudou na formação de muitos artistas presentes na mostra. “A facilidade que ele tinha em espalhar o seu trabalho e a palavra dele se refletem aqui hoje”, completa.

Responsável por ampliar os horizontes artísticos do MASP, o curador geral da instituição, Teixeira Coelho, ao lado de seus conselheiros, apostou que arte contemporânea inspirada nas ruas caberia perfeitamente no projeto de reestruturação do Museu, que busca diversificar a programação e atrair novos públicos. Para ele, a arte contemporânea tradicional já pode ser chamada de arte contemporânea conservadora.
“Visitei um colecionador de arte contemporânea tradicional e percebi estava presente na coleção um dos artistas que está aqui na mostra. Chamou-me atenção a qualidade e força das obras. Eu não conhecia esse artista e fiquei atento a essa questão, que é uma derivação da primeira arte de rua, de existência autônoma”, diz Coelho. Os curadores e artistas sabem que há certo teor de risco na aposta de Teixeira. “Ele estava procurando algo inovador, mas que tivesse base e fundamento. Ele apostou, mas sabe também que é um bom apostador e não costuma perder”, diz Mariana.

Apesar da crescente ascensão, não são só glórias que se destacam no histórico da Choque Cultural. Muitos devem lembrar do episódio da pichação que ocorreu em setembro de 2008. Ato semelhante ao ocorrido com a Bienal de São Paulo e com a Faculdade de Belas Artes, ambos no mesmo ano. Ao invadirem a galeria, pichadores danificaram obras expostas na parede, como as do artista pop inglês Gerald Laing e do brasileiro Daniel Melim, que participa da exposição no MASP. “Foi triste e não foi uma busca por espaço, porque o espaço não é uma entidade que tem opinião. A própria rua é um lugar para se mostrar e que hoje é usada com maestria por muita gente”, diz Baixo.

“A gente tentou ser o mais discreto possível. Mas já viu criança mal educada? Isso é coisa de gente que não tem educação para saber se posicionar. Por outro lado, ficamos até um pouco honrados, porque picharam a Bienal e nós, que não temos nenhum apoio grandioso”, completa Mariana. O episódio gerou discussão e colocou em pauta exatamente a definição de grafite. Um artista que também não se intitula grafiteiro, mas que trabalha e se inspira nas ruas, comenta o acontecido. “Acho que naquele momento, eles caíram em contradição e mexeram num vespeiro. Porque grafite é vandalismo das ruas, feito por pessoas que querem se expressar. Acredito que mudaram a opinião depois da pichação. Mas todo mundo quer saber mais sobre o estilo e eles estão com uma proposta”, diz.

Proposta esta que já foi aceita nas ruas e galerias e agora vem sido também aceita por museólogos. O que prova a força de uma estética cada vez mais bem elaborada e com artistas de talento inquestionável. Para Baixo Ribeiro, é uma transformação necessária e gradual. “A gente adora o sistema. Se não entrarmos e não trabalharmos com ele, não conseguimos transformar o que está errado”.
*publicada originalmente em CartaCapital nº 573
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

outro negro


Na década de 1910, em Alagoas, o alemão José Gosch (Odilon Wagner) realiza estudos que comprovam a existência de petróleo na região e investe em uma companhia independente. Prestes a realizar a primeira perfuração, morre sob circunstancias misteriosas. O enredo de Ouro Negro, que estreia dia 11, é em parte inspirado em fatos reais narra histórias pouco conhecidas de quem foi responsável pelos primórdios da extração de petróleo no Brasil.


Concentra-se, sobretudo, em personagens fictícios que representam de certa maneira o ideal da época. É o caso de João Martins, afilhado de Gosch, interpretado por Danton Melo. Num salto na linha do tempo, sua figura reflete parte da ambição de pessoas reais, como o escritor Monteiro Lobato ou do engenheiro Manoel Bastos.


Dirigido por Isa Albuquerque, o longa-metragem é um pouco didático e soa panfletário, sobretudo nas últimas cenas. A diretora, porém, costuma advertir que o lançamento do projeto nos tempos em que o país volta a discutir o petróleo e o pré-sal não passa de coincidência.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Tokyo!



Três histórias fantasiosas formam Tokyo!, um longa-metragem em forma de rapsódia, produzido a seis mãos pelos diretores franceses Michel Gondry e Leos Carax junto ao coreano Joon-ho Bong.



A cidade é a fonte inspiradora para uma mistura ficcional que não teria sentido caso presente em outra metrópole, já que em Tóquio tudo parece possível. Michel Gondry, reconhecido diretor de videoclipes malucos e de longas como Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e Rebobine, Por Favor, apresenta Interior Design, a história de um jovem casal, recém chegado à cidade. Quando a garota percebe sua dificuldade de adaptação, começa a sofrer uma radical transformação que lhe dará sentido a vida.



Em Marde, de Leos Carax, uma estranha criatura humana destruidora sai dos esgotos da cidade, mas sua captura leva todos a um debate em torno de sua pena. Por fim, Shaking Tokyo, de Joon-ho Bong, diretor de longas de terror como O Hospeiro. Nesta última narrativa, conhecemos a vida de um hikikomori, pessoa que opta pelo total isolamento social, que mora sozinho há dez anos, sem sair de casa.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

entre a luz e a sombra




Em 160 minutos de duração, o documentário Entre a Luz e a Sombra caminha por diferentes histórias, que estão conectadas entre si. Entre os anos 2000 e 2007, a diretora Luciana Burlamaqui acompanhou a vida da atriz Sophia Bisilliat, que desde a década de 1980 dava aula de teatro aos detentos do Carandiru e buscava talentos escondidos dentro das celas do complexo.



Foi assim que conheceu Dexter e Afro-X, integrantes da dupla de rap 509-E, famosa por ter conseguido autorização judicial para realizar shows fora da cadeira. Essas duas trajetórias se unificam quando Sophia e Dexter começam um relacionamento e ela passa a ser empresária da banda. Quando o casal rompe, começa também mais uma narrativa dentro do filme, onde ficam claras pequenas disputas pessoais, entre o casal e também entre os membros da banda.



A mescla de tantas histórias, filmadas ao longo de sete anos, pode deixar Entre a Luz e a Sombra parecer um tanto sem rumo. Mas o documentário se desenrola de maneira interessante não só por mostrar os regimentos internos do Carandiru, já amplamente explorados em outros longas, mas por dar voz a homens e mulheres que lutam, de diferentes formas, pela reintegração a sociedade.



Amigos de infância, Dexter e Afro-X já não formam mais o 509-E, que terminou pouco depois de Afro-X conseguir liberdade, em 2003, mas ambos continuam como forças ativas dentro do cenário hip hop brasileiro, sendo por meio da música ou ações sociais.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009

do começo ao fim



Muito se falou na internet sobre o longa-metragem Do Começo ao Fim, de Aluízio Abranches, devido a junção de temas polêmicos em seu argumento. Mas sua estreia, realizada no último dia 27, pode decepcionar. Dois irmãos, de pais diferentes, crescem juntos e nutrem um amor fraternal exagerado.

O resultado desta relação homossexual e incestuosa teria rendido um filme de intrigas, discussões e preconceito. Ao contrário, a história de amor de Francisco e Thomas (João Gabriel Vasconcelos e Rafael Cardoso) é forrada de clichês românticos, zero dramaticidade e uma perseguição pela naturalidade que chega a incomodar.

A mãe dos garotos (Julia Lemmertz) é alertada pelos pais, interpretados por Fabio Assunção e Jean-Pierre Noher, sobre a relação dos filhos. Sem querer interferir, age com singeleza, assim como todos em volta dos garotos. A construção de uma relação polêmica onde não existe nenhuma dificuldade soa falsa. E, apesar da beleza dos meninos, algumas cenas de nudez fora de contexto chegam a constranger.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009

tocaia - de maringoni

Apaixonado por aviação e observador da vida na cidade, o jornalista e quadrinista Gilberto Maringoni mistura temáticas em Tocaia, lançamento que reúne quatorze histórias produzidas entre 1989 e 2002. Bem humoradas ou aventureiras, as histórias de Maringoni são cheias de personagens curiosos, com diferentes estilos e trajetórias de vida. às vezes, faz de si mesmo o protagonista de suas histórias.

No conto que dá nome ao livro, um matador de aluguel espera o momento de entrar em ação, enquanto conversa com o leitor. Prepara-se para o ataque, em um quarto de hotel. Segue para o local combinado, sem sucesso.

Na história Gente como a gente, uma um rapaz sofre com o trânsito na Av. São João, em São Paulo, numa narrativa bem humorada. Ele seria mais um em meio a todos os paulistanos, não fosse pelo elevado Minhocão que passa exatamente dentro de sua sala de estar. Enquanto assiste TV, conversa com motoristas, ajuda na troca de pneus e irrita-se com o caos paulistano, que termina quando a Companhia de Tráfego fecha a passagem.

Com fantasia ou não, a cidade de São Paulo é também personagem em algumas tramas. Nos capítulos finais, Longa Jornada Eu ADentro e Avoadoras, reservam detalhadas histórias autobiográficas e sobre aviação.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Marcel Gautherot



Em 1939, quando chegou ao Brasil pela primeira vez, o parisiense Marcelo Gautherot presenciou daqui o estouro da Segunda Guerra Mundial. Então radicado no Brasil, deu início a uma série de viagens onde fotografou paisagens e cenas cotidianas do norte e nordeste brasileiro.



Permaneceu no País até sua morte, no Rio de Janeiro, em 1996. Parte do resultado dessas e outras imagens produzidas durante as décadas posteriores em que viveu no Brasil estão presentes na mostra Marcel Gautherot – Norte, realizada pelo Instituto Moreira Salles, mantenedor de todo seu acervo, com mais de 25 mil imagens.



Sob curadoria de Miltom Hatoum e Samuel Titan Jr., a exposição reúne toda uma produção voltada para a Amazônia, onde os personagens são pescadores ou boiadeiros e paisagens são típicas casas de madeira a margem de rios. Em imagens em preto e branco, o fotógrafo abandona o olhar europeu e penetra na paisagem brasileira, de maneira aventureira e sensível. O MIS lança ainda livro homônimo que reúne 72 fotografias e texto dos curadores.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009

cidadão boilesen



Vencedor da 14ª edição do Festival de Documentários É Tudo Verdade, Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, gira em torno de um tema propositalmente quase esquecido, a participação de grandes empresários no financiamento das ações do exército durante a ditadura. O principal deles, e figura central deste longa, foi Henning Albert Boilesen, dinamarquês naturalizado brasileiro, presidente da Ultragáz na década de 1960.

No longa-metragem, Litewski aborda o tema de maneira interessante, com trilha sonora animada e edição moderna, que ajudam a suavizar o conteúdo. Resultado de pesquisa extensa, a trajetória de Boilesen é contada desde a infância, com a ajuda de arquivos escolares municipais, que revelavam, desde cedo, uma personalidade dúbia. Conhecido por amigos como pessoa bem humorada, um líder nato, Boilesen por vezes era cruel e frio, um sádico. Chegou ao Brasil pobre, mas rapidamente, e por méritos próprios, se tornou presidente de uma das maiores companhias da época. Freqüentava colunas sociais, adorava grandes bailes, caipirinhas e mulatas.

Anticomunista, teria sido responsável e maior entusiasta da “caixinha” que circulava entre os empresários brasileiros – sobretudo paulistanos – que deveria financiar a Operação Bandeirante, organizada pelo exército. Boilesen teria participado pessoalmente de sessões de tortura, sendo responsável por trazer ao País um aparelho de choques elétricos mais moderno, tempos depois conhecido como Pianola Boilesen.

Por meio de depoimentos bastante diferenciados, Cidadão Boilesen traça um perfil do empresário até sua morte, em 1971, quando fora encurralado e executado por militantes da ANL e MRT em uma rua próxima a Avenida Paulista, em São Paulo. Carlos Eugênio Paz, líder da ação e um dos poucos sobreviventes do grupo, fala com detalhes sobre o dia da morte do empresário. O depoimento de ex-militares, políticos, religiosos, guerrilheiros, amigos e parentes estão mesclados a cenas de ficção de longas como Pra frente Brasil, de Roberto Farias e Lamarca, de Sérgio Rezende. A narrativa por vezes deixa escapar, sutilmente, um quê de ironia, resultado da fala descuidada de alguns entrevistados.
terça-feira, 24 de novembro de 2009

polícia, adjetivo



O policial Cristi vive de observar um grupo de adolescentes que saem da escola e se encontram para fumar haxixe. De longe, caminha lentamente, persegue bitucas de cigarro que os garotos deixam para trás, procura alguma prova de que ali estejam mais do que usuários.

O longa-metragem romeno Polícia, Adjetivo, de Corneliu Porumboiu, trata de tédio, voyeurismo e instituições hierárquicas, onde o funcionário é obrigado a cumprir papéis indesejáveis. É o caso de Cristi, interpretado por Dragos Bucur, que discorda de prender em flagrante os jovens maconheiros. As entediantes perseguições, que são boa parte do filme, ajudam o espectador a perceber um também entediante estilo de vida, onde a personagem não tem voz.

A cena que dá título ao longa, e a que vale toda espera, é de humor sutil e inteligente. Intrigado com a ordem de prisão dos adolescentes, Cristi se reúne com o chefe de polícia. Este, munido com dicionário, quer ensinar ao subordinado o real sentido das palavras consciência e polícia.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O poder da míni

A história o leitor já conhece. Geisy Arruda, 20 anos, a loira do vestido curto da Universidade Bandeirante (Uniban), é notícia desde 22 de outubro, quando teve de sair do campus da faculdade escoltada pela polícia, sob xingamentos e vaias dos colegas. Imagens gravadas pelo celular e difundidas pela internet tornaram Geisy o centro das atenções, assunto dos mais comentados no Twitter, tema de música de axé no YouTube, além de notícia constante em incansáveis jornais, sites e programas de tevê. Está, inclusive, na mira da Playboy. “Deu no New York Times”, diria Jorge Ben. E deu também no Guardian, do Reino Unido, no americano Examiner e no Pakistan News. Este último, de fato intrigado, devido à fama dos microbiquínis brasileiros. Geisy tornou-se uma espécie de Maria Madalena moderna. Os puros que atirem a primeira pedra.

Expulsa e reintegrada à universidade em menos de 48 horas, Geisy motivou protestos por parte de militâncias feministas e estudantis. Um deles, realizado em frente à instituição na segunda-feira 9, reuniu associações de amparo à mulher, cujas representantes, de microfone em punho em cima do trio elétrico, gritavam sem sucesso. Dos manifestantes presentes, muitas mulheres, donas de casa, senhoras e alguns garotos. Raros eram os alunos da Uniban. A maioria dos estudantes na proximidade do protesto, em parte protegida pelas grades, mantinha o discurso agressivo, vaiando e repetindo a postura vista contra Geisy no dia 22.

Estudantes da Uniban, hoje preocupados com a imagem que terão num futuro próximo, participam do protesto de maneira bairrista, sem parecer entender a discussão sugerida pela turma do trio elétrico. Maria Fernanda Marcelino, militante da Marcha Mundial das Mulheres, é uma delas. “Queríamos abrir um debate sobre como deveriam refletir e não deixar propagar um tipo de comportamento que para a sociedade é muito danoso.” Segundo Maria Fernanda, a decisão de expulsar a garota de vestido curto remete a um senso comum que justifica a violência contra a mulher. Como se a culpa por uma agressão, independentemente de suas circunstâncias, fosse sempre da agredida. “Acredito que a Uniban tenha dado um recado péssimo, do tipo ‘homens continuem agredindo mulheres, a responsabilidade é sua’”, diz a integrante da ONG Sempreviva Organização Feminista. A militante diz ter tido apoio de alunas que temem expressá-lo por temerem ser prejudicadas de alguma forma. “Quando depreciamos a faculdade, questionamos o futuro dessas pessoas.”

Apesar de presente em grande número, a maioria das alunas mulheres não parece se preocupar com a discussão de direitos feministas. Querem, assim como o restante dos alunos, enxovalhar a garota do vestido rosa. Como se o caso de Geisy tivesse se transformado numa enorme rede de intrigas e fofocas, onde não só a universidade mas o País inteiro pudesse opinar. Não foram poucos os xingamentos ouvidos durante a manifestação, em que estava presente Letícia Quinello, aluna de Pedagogia. “Só a gente viu essa menina levantando o vestido e mostrando a bunda com a calcinha pra fora. Essa ideia de sensacionalismo só leva a crer que o brasileiro é burro”, diz a aluna de 27 anos, trajada com terninho e saia reta na altura dos joelhos. A amiga de curso, Letícia Longuinho, de 19 anos, conta que Geisy mandava beijos, mostrava os seios e posava para fotos antes e durante a confusão. “Muitas meninas vêm de saia curta, não vamos ser hipócritas. Mas é maneira de se comportar? Se fosse eu, mesmo de saia curta, não ia me portar como celebridade, mas como alguém que quer respeito.”

Depois de reintegrar a aluna, a Uniban decidiu transferir a turma de Geisy para outro prédio do campus, mais afastado. Em entrevista coletiva, Ellis Brown, vice-reitor, ofereceu apoio e segurança necessários à volta da garota, que não frequenta as aulas desde o ocorrido. Na manifestação da segunda, Pedro Lessi, um dos advogados de Geisy, gritava a plenos pulmões em cima do trio elétrico que faria de tudo para fechar a Uniban, que “não dá tratamento digno ao ser humano”. Esta imagem rendeu à universidade o apelido de Unitaleban, em referência à milícia extremista islâmica.

O advogado defendia firmemente a segurança da mulher. Ao avistar a apresentadora Sabrina Sato, que gravava matéria para o programa humorístico Pânico na TV, debochou dos alunos que não teriam coragem de censurar o vestido da famosa. “Seus covardes”, gritava. “Isso afeta a Constituição Federal, a lei foi rasgada. Geisy foi vítima da ardilosidade de homens totalmente despreparados para a sociedade. E esses diretores que voltaram atrás na decisão da expulsão não têm caráter nem personalidade. Deveriam ser banidos do ensino no Brasil”, disse um pouco depois à CartaCapital.

Quietas em um dos cantos da manifestação, as estudantes de Moda Stephanie Gusmão e Zan, de 21 e 27 anos, estavam atentas aos discursos, sem achar necessária a euforia do momento. “A mulher lutou muitos anos pela liberdade a favor da minissaia e agora a ‘mina’ vem assim e é tratada como lixo? Sou a favor da liberdade, cada um anda como quer e se não concorda, venha diferente”, diz Zan. Pacíficas e bem-humoradas, sugerem uma manifestação de impacto. Que tal, a favor da liberdade, todas retirarem suas mínis do armário?
terça-feira, 17 de novembro de 2009

é tudo mais ou menos verdade

Nova compilação de Allan Sieber traz narrativas inspiradas na vida real

É tudo mais ou menos verdade
Ed. Desiderata, 128 págs, R$ 49,90

Para grandes cartunistas, a verdade é mais interessante que a ficção. Se aproveitada de maneira correta, a narrativa de um fato banal pode tornar-se interessante, engraçada, à maneira de Robert Crumb e Harvey Pekar. Inspirado por esses, e outros, o gaúcho Allan Sieber olha em volta em busca de observações cotidianas que o fazem refletir sobre uma boa história. Sarcástico e inteligente, o humor de Sieber zomba conosco, aproveita as brechas sujas e incoerentes da sociedade para nos fazer rir. É, acima de tudo, atento a detalhes, às piadas prontas. Em seu novo livro, É tudo mais ou menos verdade, reúne histórias mais longas que as usuais tiras, algumas inéditas outras encomendadas e publicadas por diversos veículos. “Os pequenos detalhes bobos, quando contados de maneira interessante, se tornam interessante”, disse em conversa por telefone.

“Jornalismo investigativo, tendencioso e ficcional de Allan Sieber” é o subtítulo que entrega ao leitor o tom das narrativas. Mais como um observador, o cartunista vai cobrir eventos como o Fashion Rio, onde observa o backstage de desfiles, penetra em festas fashionistas e conta piadas que ninguém entende. Também no Rio de Janeiro, cidade onde mora hoje, acompanha um tour pela favela, feita para turistas. No grupo, argentinos irritantes e uma guia turística sem noção. Foi no Rio também, que Sieber descobriu o paradeiro de Adolfo Hitler, o Seu Dodô, morador do bairro do Leblon, fã das rodas de samba da Lapa.

“As pessoas tendem a achar que as histórias são muito exageradas, mas 90 por cento das coisas aconteceram. Mas sempre há pequenas omissões”, diz Sieber. Na série Memórias Alheias, cria pequenas histórias inspiradas por casos impensáveis de amigos, ou inimigos. “É uma motivação poder me vingar dessa maneira”, diz sobre os últimos. “Sei de pessoas que se reconheceram nas histórias, mas nunca me falaram nada e não tive nenhum tipo de problema”.

Sieber é fruto de uma geração criativa, ao lado de outros bons cartunistas e amigos como Arnaldo Branco e André Dahmer. Ao contrário dos dois, porém, não gosta de passar horas no Twitter e sabe, muito mal, atualizar seu blog, onde posta com certa freqüência. “É uma ferramenta genial, mas ainda acho estranho. Parece que as pessoas perderam a divisão entre o publico e o privado”, diz o cartunista que tem como personagem principal ele próprio.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009

haicai

De origem japonesa, a forma poética haicai consiste originalmente em três pequenos versos, de cinco, sete e cinco silabas. Muito difundido em seu país de origem, pouco foi estudado no Brasil, mas não por isso deixou de ser representado por grandes nomes da literatura de língua portuguesa.

Adaptado ou seguido à risca, o haicai brasileiro está reunido na compilação Boa Companhia, Haicai, organizado por Rodolfo Witzig Guttilla, que há mais de 25 anos estuda o estilo.


Inspirados, Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade relatam cenas curtas e bem humoradas. Monteiro Lobato, o primeiro a aderir ao estilo, em 1906, prefere a forma clássica e faz versos sobre a natureza. Erico Verissmo, Paulo Leminsk, Luis Aranha, Millôr Fernandes e outros também estão na reunião
quinta-feira, 12 de novembro de 2009

carlos vergara e a dimensão gráfica


Adepto a experimentações, o gaúcho Carlos Vergara produziu extenso acervo onde se mostra interessado em trabalhar além da pintura. Criando sobreposições em telas, fotografias ou instalações, consegue migrar de suportes sem perder a forte presença de grafismos e cores.


Os grafismos são parte essencial da produção deste aluno de Iberê Camargo e inspiração para a mostra Carlos Vergara – A Dimensão Gráfica, que o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro recebe a partir do dia 12. Um conjunto de mais de 200 peças demonstra a linguagem do artista em monotipias, gravuras, desenhos, fotografias, telas e instalações, realizadas desde os anos 1960 até hoje.


Algumas peças retiradas do acervo do próprio curador e colecionador Georges Kornis. “Vergara não é somente um pintor. Uma fotografia pode se desenvolver em serigrafia, que por sua vez poderá se tornar uma pintura. Esta é sua grande alquimia”, diz Kornis, que optou por separar a mostra em quatro núcleos de observação, organizados em torno de temas diversos.
terça-feira, 10 de novembro de 2009

brecheret indígena


Lembrado essencialmente por obras de teor clássico ou romântico, o ítalo brasileiro Victor Brecheret também criou esculturas inspiradas em nos regionalismos nacionais, embora estas não sejam responsáveis pela fama do artista. Em terracota, madeira e pedra Brecheret deu forma a figuras indígenas que remetem ao primitivismo e a deuses antepassados.

Parte da vontade de abrasileirar sua produção teria vindo do amigo Mário de Andrade, que o aconselhou a estudar tribos indígenas. Criadas nesta fase, 24 esculturas e 23 desenhos com artes pictográficos estão reunidas na mostra A Arte Indígena de Vitor Brecheret, inaugurada na Caixa Cultural São Paulo, em cartaz até janeiro de 2010. Entre as peças, três grandes pedras que juntas narram a história de uma índia e um peixe, aliando escultura e gravura em uma só obra. Brecheret teria achado as três pedras à beira de uma praia do nordeste brasileiro e arrastado-as até a areia.

Nos desenhos, imagens que lembram escrituras antigas, como inscrições feitas na em ocas ou cavernas. Em exposição a obras Índio e a Suaçuapara, premiada como melhor escultura nacional na 1ª Bienal de Arte de São Paulo, em 1951.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009

a elegância de woody allen



Há quem ame e quem odeie o quê caricatural que consagrou o humorista, diretor e roteirista Woody Allen. Em muitos de seus mais de 40 longas-metragens, ele criou e interpretou o mesmo personagem, muitos dizem, o dele próprio. Controverso, neurótico, criativo crítico da sociedade americana, Allen é mestre da comédia, ao mesmo tempo em que flerta com o suspense e os dramas, quase sempre envoltos em desequilibradas tramas conjugais.

Desde 1966, produz praticamente um filme por ano. Quarenta dessas produções estão na mostra A Elegância de Woody Allen, apresentada pelo Centro Cultural Banco do Brasil, do Rio, entre os dias 3 e 29 de novembro. A vasta programação, que se estende ao CCBB de São Paulo a partir do dia 18, é um prato cheio aos fãs do cineasta, além de constituir excelente porta de entrada aos menos familiarizados com o estilo do autor. Entre as projeções, todas exibidas em película, está o novo longa do diretor, Tudo Pode Dar Certo, previsto para lançamento no Brasil somente ano que vem.

Há também marcos iniciais da carreira de Allen, como seu primeiro longa O Que Há, Tigresa?, de 1966, além de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo Mas Tinha Medo de Perguntar (1972) e Manhattan (1979). Realizações da recente “fase europeia” do diretor, como Match Point (2005) e Vicky Cristina Barcelona (2008), também serão exibidos, mas o que faz a mostra ser ainda mais atrativa são aqueles que complementam a filmografia de Allen.

Meetin’ WA (1986), de Jean-Luc Godard, reconta a história do cineasta americano, lançado no mesmo ano de Hannah e Suas Irmãs, enquanto Wild Man Blues (1997) acompanha uma turnê de Allen e sua banda de jazz. Ainda hoje, a Eddie Davis New Orleans Jazz Band reúne-se às segundas-férias no Café Carlyle, em Manhattan, com Allen nos clarinetes. A mostra apresenta também longas nos quais não teve participação na produção ou direção, mas atuou em papéis de destaque como Company Man (2000), de Perter Askin e Douglas McGrath e Rei Lear (1987), de Godard.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009

salve geral - nos cinemas

Em maio de 2006, a cidade de São Paulo se viu sitiada pelos ataques do Primeiro Comando da Capital, o PCC, que agia em resposta a transferência inesperada de mais de 700 presos para a penitenciária de segurança máxima de Presidente Bernardes, incluindo líderes da facção. O episódio recente, e possivelmente fresco na memória da população, volta à tona no longa-metragem Salve Geral,de Sérgio Rezende, em cartaz nos cinemas.

Ficção baseada em realidade, o filme usa o episódio ocorrido na capital para discutir sobre a organização sistema penitenciário brasileiro e as relações entre governo e facção, no filme chamada de Partido. Coincidentemente, seu lançamento ocorre na mesma época em que se inicia o julgamento de Marcos Camacho, o Marcola, e Júlio César de Moraes, o Julinho Carambola, apontados como líderes do PCC.

O diretor carioca inspirou-se no episódio paulista para fazer a sua espécie de alerta, ou mesmo, mostrar sua porção de indignação. “Guardadas as proporções, este episódio foi o nosso 11 de Setembro. Revelou o descontrole absoluto e caótico em que nós vivemos e todas as contradições da sociedade brasileira”, disse Rezende à CartaCapital.

Salve Geral narra também a história de Lúcia (Andrea Beltrão), uma professora de piano que, ao ter o filho preso, conhece a advogada Ruiva, (Denise Weinberg, em excelente atuação) e se envolve diretamente com o Partido. Faz pequenos favores, a fim de conseguir vantagens para o filho. As relações entre Partido e governo e o andamento das negociações para o cessar dos ataques são pontos altos do longa.

Usando uma das falas da personagem de Beltrão, Rezende se mostra desapontado com a própria sociedade. “Lucia diz que sempre que sempre que está com medo, fecha os olhos. Mas estas questões estão longe de serem superadas e são responsabilidade de todos. A única maneira de solucionar, ou começar a solucionar, é encarar”, acredita. Mais que um filme sobre uma facção, Salve Geral é trata da perda de controle. Seja sobre uma cidade, um presídio ou a própria razão.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009

nos becos do limpão

No bairro do Jardim Limpão, Daniel Melim ensina jovens a grafitar

É em direção a uma estreita viela, na entrada do bairro do Jardim Limpão, em São Bernardo do Campo, que Daniel Melim se dirige, carregando material que traz no porta-malas de seu carro. Num caixote de supermercado estão latas de tinta, sprays coloridos, pincéis e estênceis. São poucos, comparados aos que o artista usa em seu atelier, localizado a metros dali, mas suficiente para fazer a alegria de uma molecada que o avista de longe e chega pulando para cumprimentar. Há quatro anos, Melim desenvolve no bairro que viu crescer o Projeto Comunidade Limpão, que tenta voltar a atenção dos jovens e crianças para a arte, usando como base principal o grafite.

Em uma espécie de workshop improvisado, numa manhã de domingo, o artista reúne algumas crianças e começa a planejar, com elas, a nova fachada da sede da comunidade. O lugar, um pequeno quadrado com banheiro, é também a base do Centro de Capoeira Angola Angoleiro Sim Senhô, onde ao mesmo tempo, Fabio Almeida, conhecido como Preto, ensina um grupo a montar um xequeré, um dos instrumentos de percussão usados nas rodas de capoeira. Cenas como estas, repetidas em fins de semana no Limpão, se tornaram rotina para a comunidade, assim como para Melim, artista em progressiva ascensão no hoje cobiçado mundo da chamada street art.

Foi no Jardim Leblon, também em São Bernardo, que começou a trajetória como artista. Trabalhou como motorista quando jovem, deu aula de pintura em escolas públicas e hoje, aos 29 anos, já expôs em mostras no Brasil e no exterior e é representado por uma importante galeria em São Paulo, a Choque Cultural, especializada em arte contemporânea. Um de seus últimos trabalhos está hoje em Londres. Convidado pela ONG Action for Brazil’s Children, que tem como patronos figurões do showbussiness, como o guitarrista Jimmy Page e o cineasta Fernando Meirelles, Melim customizou uma cobiçada guitarra da marca Gibson. O objeto, junto com outros 11 feitos por outros artistas, será leiloado em breve.

Se Melim já é um nome conhecido para os modernos e entendidos, ali, para as crianças do Limpão, é o boa gente que vem ensinar como trabalhar com uma técnica antes marginalizada. Começando a pintura de base na parede da sede, Lucas, de 14 anos, Rafael, 12, Rodrigo, 15, e Gabriel, 9, discutem o tema que deverá emergir do velho muro.

“O símbolo do Corinthians!”, alguém grita. “Não fala besteira, menino”, retruca o professor. De maneira muito natural e improvisada, Melim guia os garotos, ensina o processo e os deixa trabalharem sozinhos. Mostra como segurar um rolo de tinta, explica as diferenças entre os diversos tamanhos de bicos do spray e ajuda a montar a idéia geral do projeto. O grupo é pequeno, para evitar bagunça. Ainda assim, o artista precisa chamar atenção dos insistentes, que tentam, em vão, usar os sprays para “pichar” o muro da frente. E coitado de alguém que usar a palavra pichação. “Aqui ninguém picha”, diz Melim, que é imediatamente respeitado. Um dos rebeldes acaba escapando e vai pintar um poste com o que sobrou de tinta vermelha num rolinho. Tudo bem.

Encostadas nas proximidades, outras crianças observam e tentam chegar para ajudar. Hoje não, mas fica pra próxima. O material, todo bancado pelo artista, só é suficiente para pintar a sede, mas a parede ao lado, cedida pelo dono do bar vizinho, já está reservada para a próxima intervenção. Outras crianças trabalharão nesse dia. A pintura das vielas, muros e fachadas de casa só funciona com a autorização dos donos das casas. “Aqui tem muitos evangélicos e eles não gostam das figuras. Normalmente acham que é coisa do diabo”, explica Melim.

Do lado de fora, é possível ouvir o barulho do batuque que vem de dentro da casa. Fabio Almeida, o Preto, está ensinando um grupo a montar um xequeré, instrumento africano que custa em média 100 reais, mas que no workshop do Limpão, o morador aprende a fazer e leva pra casa. Na cozinha improvisada, um fogão de duas bocas esquenta uma panela de pressão cheia de canjica. “Tentamos resgatar a cultura africana, através da música, da capoeira e da culinária. É a nossa essência”, diz Preto, ao mesmo tempo em que mostra a repórter como construir o instrumento. Para o professor de capoeira, pernambucano de 31 anos, que há 8 trabalha e mora no Limpão, a maior dificuldade não é ensinar as crianças, mas seus pais. “É difícil formar a identidade dos pequenos, quando eles saem daqui ouvindo o canto das lavadeiras e voltam para casa para ouvir funk que os pais ouvem”. Preto conta que se teve noção de sua responsabilidade junto as crianças no dia em que um garoto o viu tomando cerveja em um churrasco. “Você é um mentiroso! Ensina a gente não beber, e está aí, com a latinha na mão”, foi a bronca do garoto. Depois disso, parou de beber. E o garoto, hoje com 13 anos, é Caíque, um dos mais experientes e promissores da roda de capoeira.

A sede não é, contudo, freqüentada só por moradores. A professora Roberta Costa, de 29 anos, ouviu de seus vizinhos que ali eram dadas aulas de capoeira e resolveu conhecer. Assídua no local há pouco mais de dois meses, ela traz o filho Flavio, de 4 anos. O garoto é um dos mais empolgados quando ouve o som do berimbau e arrisca alguns passos que vem aprendendo nas aulas. “Ele só fala disso, adora vir aqui. E tenho aprendido coisas de raiz que posso também levar pros meus alunos”, conta a professora da rede pública que ensaia uma dança africana para os alunos colocarem em prática na próxima festa junina.

Do lado de fora, o muro está quase pronto. Enquanto Lucas saca um aparelho de MP3 e ouve funk carioca, do tipo “proibidão”, Rodrigo, o mais velho da turma, termina uma parte do stencil. A técnica muito usada na arte de rua e consiste em usar uma espécie de forma para delimitar traçados. Com o muro pronto, Melim saca a câmera e faz fotos. Todos querem mostrar os dedos sujos de tintas, orgulhosos do trabalho que terminaram, depois de mais ou menos quatro horas de pintura. “Tentamos fugir da idéia de deixar a favela ‘mais bonita’. Queremos sim, humanizar os becos, trazer as crianças para perto de nós e deixá-los cada vez mais longe do tráfico”, diz Melim. Há cerca de quatro anos dando continuidade ao projeto Comunidade Limpão, Melim, Preto e os outros organizadores dessa pequena sede ainda encontram dificuldades para conseguir apoio. Tentam, pelos próprios meios, agir de maneira independente. O desejo antigo de montar uma ONG, que receba doações de maneira legal, julgam ser um processo burocrático demais. Mas que aos poucos começa a tomar forma. Enquanto isso, nos fins de semana do Limpão, faça chuva ou faça sol, a garotada segue aprendendo o que lhes é ensinado. Mesmo que seja misturando o funk com o afoxé.