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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Achados de família

Thomaz Farkas revira seu acervo e redescobre sua própria trajetória

POR CAMILA ALAM

Quinze enormes álbuns de fotografias, mais de 450 rolos de filme de 35mm, dezenas de caixas com ampliações-guia e outros 100 rolos de negativos 6 x 6. Este vasto acervo fotográfico, pertencente ao húngaro naturalizado brasileiro Thomaz Farkas, foi revirado e redescoberto no último ano por seus filhos, João e Kiko Farkas. O material, em parte inédito, traz imagens feitas na juventude, nas perambulações de Farkas pelo país ou em andanças pela cidade de São Paulo. Esta pesquisa se mostrou repleta de surpresas e dela surgiu a retrospectiva Thomaz Farkas: Uma Antologia Pessoal, exposta na sede paulista do Instituto Moreira Salles, a partir de 27 de janeiro e também reunida em livro.

Nascido em Budapeste, em 1924, veio ao Brasil com a família no começo da década de 1930. Herdeiro de uma das grandes empresas de equipamentos fotográficos, a Fotoptica, ganhou cedo do pai sua primeira câmera. Na adolescência e no início da vida adulta, participou do Foto Cine Clube Bandeirante, cujas reuniões aconteciam no mesmo prédio da empresa familiar. Ao lado de outros frequentadores, como Geraldo de Barros e German Lorca, participou de salões e premiações. Foi visto como mascote da turma e ao mesmo tempo prodígio.

Durante um ano debruçados sobre o acervo do pai, os filhos João e Kiko selecionaram, ao lado dos técnicos e curadores do IMS, imagens que resumem sua produção fotográfica nas décadas de 1940 à 1970. Ao fotógrafo, hoje com a saúde um pouco debilitada, coube a inspeção, os mergulhos na memória, as redescobertas em torno de sua própria e trajetória. “Não me lembrava desta...”, dizia a toda hora, segundo João, seu terceiro filho.

De cunho geométrico e experimental, suas imagens iniciais vieram a antecipar o construtivismo, movimento crescente nas artes visuais durante a década de 1950. “Muito cedo ele pode fotografar com suporte. Desenvolveu uma linguagem própria ainda na adolescência, uma documentação muito leve, jovem, instigante”, diz Sérgio Burgi, coordenador de fotografia do IMS e um dos pesquisadores do acervo de Farkas. Desta época, surgem cenas noturnas da capital paulista. Muitas inéditas, como Ensaio do Balé Russo no Teatro Municipal ou Escadaria da Galeria Prestes Maia, ambas de 1946, onde é explícita sua procura pelo chiaroscuro, pelas construções de luz em torno da paisagem e de personagens.

Mais tarde voltado a uma visão humanista, Farkas se dedicou à imagens documentais, personagens e cenas cotidianas registradas em viagens que fez pelo país. Em Brasília, na década de 1950, não se limitou à registrar a construção da cidade, mas pesquisava os arredores, visitava povoados dos trabalhadores que erguiam a capital, os candangos. Por muito tempo, viu a fotografia como um passatempo pessoal, principalmente depois de começar a trabalhar na produção de documentários, na década de 1960. “Ele faz uma opção pelo cinema, chegou a anunciar que pararia de fotografar”, diz Burgi.

Com o projeto Carvana Farkas realizou filmes no interior do Brasil, voltados para a redescoberta de nossas raízes, dirigidos por ele mesmo ou colegas como Eduardo Escorel e Maurice Capovilla. Uma série de documentários, intitulada A Condição Brasileira, registrava a vida nas periferias das grandes cidades do Norte e do Nordeste, em material de caráter pedagógico. Naqueles tempos, foi acusado de colaborar com a guerrilha, o que lhe rendeu uma semana de cárcere no DOI-CODI, em 1968. Tinha, no entanto, uma visão menos idealista, mais preocupada com linguagem e a educação.

Desde criança, o filho João lembra do pai com a câmera pendurada no pescoço, sobretudo nas reuniões de família. Ao revirar o acervo, a descoberta foi também pessoal. Entre as centenas de imagens cuidadosamente arquivadas por Farkas, estão cenas tradicionais da família, imagens que João e Kiko pouco lembravam, outras totalmente desconhecidas. São cenas familiares, algumas tiradas antes do nascimento dos filhos, que ganham ares raros, ao mesmo tempo em que desembocam numa viagem afetuosa nunca antes vivenciada pelos irmãos.

“Examinar pela primeira vez todos aqueles negativos ofereceu a mim e ao Kiko uma experiência de reconstrução afetiva e de descobertas estéticas. Nossa excitação e deslumbramento foi crescente à medida que descobríamos personagens sem registro em nossas memórias”, diz o filho. Como editor de fotografia, João passou anos examinando produções de fotógrafos diversos. Ao se debruçar sobre a obra do pai, pode perceber pela primeira vez o natural desenvolvimento de um artista, cuja obra inicialmente marcada pela técnica ganhou contornos pessoais e simbólicos.

Destas pastas pessoais, o IMS e a família Farkas pretende dar conta de outro projeto, o de mostrar o fotógrafo e sua intimidade, os familiares, cenas íntimas de uma tradicional família européia na capital. Toda seleção também será feita sob olhar atento do artista, que hoje apenas brinca com os efeitos de uma câmera digital. Em sua trajetória, registrou os seus e o povo. Mais do que lidar com manifestos artísticos ou políticos, se importou com questões de linguagem e caminhou pelos sentimentos e diálogos. Com sua conhecida alegria de viver, costuma ainda cumprimentar aqueles que o abordam com um “Viva! Viva a fotografia!”.

sábado, 8 de janeiro de 2011

charles mogadom e conde euphrates

AS AVENTURAS DE SIR CHARLES MOGADOM E DO CONDE EUPHRATES DE AÇAFRÃO
Artur Matuck, Carlos Matuck e Rubens Matuck
Ed. Terceiro Nome, 160 págs, R$ 99

Pela cidade fictícia de Damar, passeia Nicolaus Copernicus, uma grande embarcação com asas de borboleta, sempre guiada pelo Conde Euphrates em companhia de Sir Charles Mogadom. Neste universo de fantasia, criado pelos irmãos Artur Matuck, Carlos Matck e Rubens Matuck em forma de história em quadrinhos, estão figuras notórias, como Santos Dumont. Em viagem a Damar, cidade com cara de sonho, o inventor teve a derradeira inspiração ao ver suspenso no ar Copernicus, o navio que voa.

Em As Aventuras de Sir Charles Mogadom e do Conde Euphrates de Açafrão, os desenhos de Rubens Matuck são feitos a lápis de cor e transbordam tons. Dão vida a figuras fantasiosas criadas na imaginação dos três irmãos há mais de 30 anos. Aos 11 anos, Rubens Matuck criara pela primeira vez o universo de Damar, em um desenho de criança reproduzido nas primeiras páginas do exemplar. Feito também a lápis de cor, o desenho de uma casa ao topo de uma montanha de cristais era o prelúdio do que mais tarde viria a se tornar esta série, feita em conjunto com os irmãos, responsáveis pela elaboração dos textos. Divididas em capítulos, algumas histórias são baseadas apenas em imagens e deixam o leitor adentrar em um mundo desconhecido. Para iniciar a jornada, textos complementares de Oscar D’Ambrosio introduzem este universo e suas referencias. Ao final, ele entrevista os principais personagens da trama.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010

paulo caruso - avenida brasil

AVENIDA BRASIL: ENFIM UM PAÍS SÉRIO!
Paulo Caruso
Devir Livraria, 96 págs, R$ 29,50

Desde a década de 1970, o cartunista Paulo Caruso lança seu olhar sobre a política brasileira na série Avenida Brasil, que tem como personagem principal uma via pública fictícia por onde circulam em bares ou barbearias os políticos que tomam os noticiários. É “a via das dúvidas”, enfatiza o autor. Originária da série Bar Brasil, uma metáfora adequada aos tempos da ditadura, esta Avenida Brasil já rendeu títulos que enfocam os principais acontecimentos dos últimos governos.

Próximo ao fim do segundo mandato do Presidente Lula, o cartunista lança Enfim um país sério!, o segundo sobre o governo do petista, antecedido por Se Meu Rolls-Royce falasse (2006). Nesta coletânea, treze histórias relembram com humor casos ocorridos nos últimos anos. Elas abordam a ascensão de mulheres a cargos públicos, as relações do governo com a América Latina, a eleição de Barack Obama ou a prisão do ex governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda.

No capítulo XI, Caruso faz uma pausa na temática política para homenagear artistas falecidos que agora armam festas entre as nuvens. Carlos Drummond de Andrade, Cartola, Tom Jobim e Vinicius de Moraes ficam perplexos com a chegada de Michael Jackson, que dança seu tradicional moonwalk sobre a lua. “Durante esses trinta anos, a cada semana, depois de concluída mais uma página, me perguntava como seria a seqüência final desta história. Essa experiência agora se encerra aqui, com o fim de uma era”, diz o autor.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Viva o Brasil



O material fotográfico da exposição Viva o Brasil, de Xavier Roy, já passou por algumas capitais brasileiras e agora é editado em livro homônimo (Imprensa Oficial, 136 págs, R$ 60), cujo lançamento acontece dia 22 de fevereiro, na Casa das Rosas, em São Paulo. As imagens do fotógrafo francês, captadas entre 2003 e 2009, buscam registrar o cotidiano das ruas e o aspecto humano dos locais visitados. Passando por diversos estados brasileiros, Roy viajou de São Paulo aos Lençóis Maranhenses, do Rio de Janeiro a Santarém. “Foi neste país que vivenciei alguns dos meus mais belos encontros fotográficos”, diz na apresentação do livro.



Inspirado pelos romances de Jorge Amado e pelas canções de Gilberto Gil, o francês buscou no Brasil a mesma peregrinação que já havia feito em outros países, quando trabalhava como repórter e carregava consigo a máquina fotográfica. Hoje somente dedicado à fotografia, reúne neste lançamento 119 imagens em preto e branco captadas durante suas viagens pelo país. São, em sua maioria, fotografias que retratam um Brasil tranquilo, em imagens de cotidiano que fogem do registro documental da violência ou miséria.



São fotografias de crianças brincando no mar, cachorros passeando na orla da praia, mulheres em típicas vestimentas baianas. Roy diz, em entrevista cedida ao também fotográfo João Kulcsár que completa o livro, que busca registrar o espírito humano, que é o mesmo aqui ou em qualquer outro lugar.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Policarpo em quadrinhos

Dando continuidade a série Grandes Clássicos em Graphic Novel, a editora Desiderata lança O Triste Fim de Policarpo Quaresma (74 págs, R$ 44,90), de Lima Barreto, com roteiro de Flávio Braga e desenhos de Edgar Basques.

Este cartunista gaúcho, acostumado com humor, ambienta com precisão o Brasil do século XIX em quadros aquarelados. São bem cuidadas as paisagens cariocas em tons pastéis e a indumentária é detalhada.

O roteiro de Braga se prende aos fatos principais do livro e extrai humor de cenas variadas, como quando o anti-herói se põe a chorar ao cumprimentar alguns visitantes, pois “é assim que fazem os tupinambás”. O Triste Fim de Policarpo Quaresma foi originalmente publicado em folhetins, entre agosto e outubro de 1911, mas não deixa de se mostrar atual ao discutir o papel da liberdade de expressão.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009

tocaia - de maringoni

Apaixonado por aviação e observador da vida na cidade, o jornalista e quadrinista Gilberto Maringoni mistura temáticas em Tocaia, lançamento que reúne quatorze histórias produzidas entre 1989 e 2002. Bem humoradas ou aventureiras, as histórias de Maringoni são cheias de personagens curiosos, com diferentes estilos e trajetórias de vida. às vezes, faz de si mesmo o protagonista de suas histórias.

No conto que dá nome ao livro, um matador de aluguel espera o momento de entrar em ação, enquanto conversa com o leitor. Prepara-se para o ataque, em um quarto de hotel. Segue para o local combinado, sem sucesso.

Na história Gente como a gente, uma um rapaz sofre com o trânsito na Av. São João, em São Paulo, numa narrativa bem humorada. Ele seria mais um em meio a todos os paulistanos, não fosse pelo elevado Minhocão que passa exatamente dentro de sua sala de estar. Enquanto assiste TV, conversa com motoristas, ajuda na troca de pneus e irrita-se com o caos paulistano, que termina quando a Companhia de Tráfego fecha a passagem.

Com fantasia ou não, a cidade de São Paulo é também personagem em algumas tramas. Nos capítulos finais, Longa Jornada Eu ADentro e Avoadoras, reservam detalhadas histórias autobiográficas e sobre aviação.
terça-feira, 17 de novembro de 2009

é tudo mais ou menos verdade

Nova compilação de Allan Sieber traz narrativas inspiradas na vida real

É tudo mais ou menos verdade
Ed. Desiderata, 128 págs, R$ 49,90

Para grandes cartunistas, a verdade é mais interessante que a ficção. Se aproveitada de maneira correta, a narrativa de um fato banal pode tornar-se interessante, engraçada, à maneira de Robert Crumb e Harvey Pekar. Inspirado por esses, e outros, o gaúcho Allan Sieber olha em volta em busca de observações cotidianas que o fazem refletir sobre uma boa história. Sarcástico e inteligente, o humor de Sieber zomba conosco, aproveita as brechas sujas e incoerentes da sociedade para nos fazer rir. É, acima de tudo, atento a detalhes, às piadas prontas. Em seu novo livro, É tudo mais ou menos verdade, reúne histórias mais longas que as usuais tiras, algumas inéditas outras encomendadas e publicadas por diversos veículos. “Os pequenos detalhes bobos, quando contados de maneira interessante, se tornam interessante”, disse em conversa por telefone.

“Jornalismo investigativo, tendencioso e ficcional de Allan Sieber” é o subtítulo que entrega ao leitor o tom das narrativas. Mais como um observador, o cartunista vai cobrir eventos como o Fashion Rio, onde observa o backstage de desfiles, penetra em festas fashionistas e conta piadas que ninguém entende. Também no Rio de Janeiro, cidade onde mora hoje, acompanha um tour pela favela, feita para turistas. No grupo, argentinos irritantes e uma guia turística sem noção. Foi no Rio também, que Sieber descobriu o paradeiro de Adolfo Hitler, o Seu Dodô, morador do bairro do Leblon, fã das rodas de samba da Lapa.

“As pessoas tendem a achar que as histórias são muito exageradas, mas 90 por cento das coisas aconteceram. Mas sempre há pequenas omissões”, diz Sieber. Na série Memórias Alheias, cria pequenas histórias inspiradas por casos impensáveis de amigos, ou inimigos. “É uma motivação poder me vingar dessa maneira”, diz sobre os últimos. “Sei de pessoas que se reconheceram nas histórias, mas nunca me falaram nada e não tive nenhum tipo de problema”.

Sieber é fruto de uma geração criativa, ao lado de outros bons cartunistas e amigos como Arnaldo Branco e André Dahmer. Ao contrário dos dois, porém, não gosta de passar horas no Twitter e sabe, muito mal, atualizar seu blog, onde posta com certa freqüência. “É uma ferramenta genial, mas ainda acho estranho. Parece que as pessoas perderam a divisão entre o publico e o privado”, diz o cartunista que tem como personagem principal ele próprio.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009

haicai

De origem japonesa, a forma poética haicai consiste originalmente em três pequenos versos, de cinco, sete e cinco silabas. Muito difundido em seu país de origem, pouco foi estudado no Brasil, mas não por isso deixou de ser representado por grandes nomes da literatura de língua portuguesa.

Adaptado ou seguido à risca, o haicai brasileiro está reunido na compilação Boa Companhia, Haicai, organizado por Rodolfo Witzig Guttilla, que há mais de 25 anos estuda o estilo.


Inspirados, Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade relatam cenas curtas e bem humoradas. Monteiro Lobato, o primeiro a aderir ao estilo, em 1906, prefere a forma clássica e faz versos sobre a natureza. Erico Verissmo, Paulo Leminsk, Luis Aranha, Millôr Fernandes e outros também estão na reunião
quinta-feira, 6 de agosto de 2009

balaiada

Histórias de um Brasil longínquo, normalmente reservadas aos livros escolares, tem sido inspiradoras para a criação de bons exemplares de histórias em quadrinhos. Exemplos recentes são os álbuns Os brasileiros, de André Toral, que narra em pequenas histórias a saga indígena no Brasil colonial, ou O Cabeleira, de Leandro Assis e Hiroshi Maeda, biografia do personagem homônimo, um dos primeiros bandoleiros nordestinos, temido anos antes de Lampião.

São, em sua maioria, narrativas inspiradas em fatos verídicos que, ao serem transportadas ao universo dos quadrinhos, ganham aura de aventura e tornam-se atrativas mesmo a leitores pouco familiarizados com o estilo. Recém lançado, o livro Balaiada – A Guerra do Maranhão (Dupla Criação, 82 págs) entra neste pacote e é resultado de um projeto concluído a seis mãos. Com roteiro do historiador Iramir Araújo e ilustrado por Ronilson Freire e Beto Nicácio, narra a eclosão da Balaiada, movimento popular que mobilizou homens livres e escravos contra a chamada Lei dos Prefeitos, na então província do Maranhão, em 1838. Lutavam, sobretudo, contra o abuso de poder escravocrata das classes políticas locais. Foram derrotados, após anos de combate com soldados da corte imperial, e seus líderes presos ou assinados.


Os quadros em preto e branco, que narram disputas e batalhas com precisão, foram divididos entre os desenhistas. Apesar de semelhantes, é possível perceber e comparar a diferença de traços entre Freire e Nicácio.
quarta-feira, 29 de julho de 2009

abstrato por necessidade ou revelação tardia

Publico aqui uma matéria que saiu na CartaCapital nº 553 e que gostei bastante de fazer. Recebi tbm alguns comentários bacanas de leitores e isso é sempre bom! =)
Depois vou tentar subir algumas imagens tbm!

Abstrato por necessidade

Quase cego, André Carneio expõe suas fotografias, tão inquietantes quanto sua obra de ficção científica

POR CAMILA ALAM

Aos 87 anos, o escritor André Carneiro tem muitas histórias para contar. Difícil é a tarefa de selecionar episódios e causos a serem narrados. Diz-se poeta, mas tem uma trajetória multifacetada. É um artista que flui com naturalidade entre diversos campos de atuação e brinca com letras, pincéis e câmeras. Ele fez cinema, fotografia, pintura. Escreveu livros, de prosa e poesia, pesquisou a parapsicologia, foi hipnólogo. Assume as tantas profissões com bom humor. “Sou um fenômeno artístico”, diz, rindo.

Nome essencial na produção literária de ficção científica, autor de Confissões do Inexplicável (2007) e Amorquia (1991), Carneiro nunca se preocupou em divulgar os negativos que guardava em casa, separados por caixas, etiquetados. Sua produção como fotógrafo está exposta pela primeira vez em São Paulo, em novo espaço cultural chamado Pantemporâneo. Para chegar até sua exposição, Carneiro sobe alguns andares do prédio em um elevador panorâmico. Acha um pouco assustador. “É o medo da imaginação”, diz.

A mostra Fotografias Achadas, Perdidas e Construídas resume 58 anos de um lado de Carneiro que ficou praticamente esquecido. Não por um desejo consciente, mas por não se considerar profissional ou por ter focado com demasiada paixão em suas outras produções.

Integrante da chamada Geração de 45, era amigo do escritor Oswald de Andrade, que, segundo ele, se queixava de uma atuação isolada e abandonada. “O grande público achava que o modernismo era uma bobagem. A fotografia artística era considerada uma arte secundária ou documentária. Mas ela transformou a criação estética do artista na época.”

Algumas das imagens do autor foram consideradas essenciais para a formação da fotografia modernista. Uma delas é Trilhos, de 1951, em que Carneiro observa, do alto, uma sequência vazia de linhas de bondes curvas e brilhantes, ornada por alguns poucos pedestres. Em outras imagens, ele põe o olhar sobre o cotidiano, observa passantes em preto e branco ou registra coloridos nus que, posteriormente, recorta para fazer montagens.

Juntamente com a exposição, Carneiro lança um livro-catálogo em que mistura as fotografias expostas com outras históricas. Estabelece relações entre a fotografia e o cinema, ou a poesia, e relembra algumas passagens da vida em que as fotos foram marcantes. Muitas delas vividas ainda na época da ditadura, quando escapou de ser preso algumas vezes. Pouco tempo depois do golpe de 1964, morava em Atibaia, interior de São Paulo, na casa de um guerrilheiro espanhol que havia sido condenado à morte por Francisco Franco, na Espanha. Raspou o bigode que adornava a face e mudou de nome. Por algum tempo, se chamou Augusto.

Em um congresso de escritores, realizado em Brasília, foi convidado a conhecer o general Costa e Silva, a quem deveria agradecer pelo auxílio oficial concedido ao evento. “Distraidamente levei até ele minha pequena câmera fotográfica, que não era russa”, relembra Carneiro. Mas não foi necessário utilizá-la. A um fotógrafo oficial coube a função de registrar o aperto de mão entre ele e o general. Daquele dia em diante, passou a carregar a foto do encontro na bagagem. “Um sujeito cumprimentado pelo presidente deveria significar bom rapaz.” A imagem o liberou certa vez de uma batida. Ele apresentou a foto aos policiais, que, cochichando entre si, permitiram sua liberação, “com as mãos úmidas e sem nenhuma acusação”.

Se a fotografia já o livrou de apuros, também lhe causou alguns tormentos. Nada que resultasse em prisão, no máximo uma discussão entre vizinhos. Carneiro costumava fazer nus. Na janela de seu apartamento, em São Paulo, usava manequins e modelos que, captados pela luz solar, refletiam a cor dourada. Numa tarde, a vizinha do prédio da frente sentiu-se horrorizada com o que via. Depois de intrigas, reclamações e contratempos na vizinhança, resolveu instalar na janela um papel opaco, como proteção para as imagens. “Brinquei dizendo que iria escrever do lado de fora: “Agora vocês perderam o espetáculo”.

Apesar de falar com humor e satisfação sobre seu trabalho, Carneiro deixa transparecer decepção. Depois de mais de 60 anos de carreira, sabe que seu nome, seja como escritor, poeta ou fotógrafo, é pouco conhecido. “Não sou muito lido, não. Faço com total dedicação toda arte, mas a consequência disso é a pobreza. Pensam que eu ganho um dinheirão, mas ganho um dinheirinho”, diz, transparecendo um misto de humor e tristeza.

Carneiro é do time de Nelson Rodrigues. Defende que o povo brasileiro possui o chamado complexo de vira-lata. Certa síndrome de inferioridade que não torna possível o elogio à própria terra, costumes ou tradições. Do ponto de vista artístico, acredita haver uma “falsa invasão de conhecimento”. “O brasileiro detesta confessar que não sabe. Existe uma atitude interessante, típica e bastante explicativa em suas consequências. É o que denominamos gozação.” Carneiro diz que até hoje tem um pouco de receio de se declarar artista, escritor, poeta ou fotógrafo. “A gozação declina para a desvalorização, um ataque sutil à posição do intelectual”, diz.

Hoje, tem cerca de 10% de visão e, em razão do problema, pouco fotografa. Realiza, entretanto, alguns autorretratos e quadros abstratos com base de vidro. Diz que chegou à abstração não por evolução natural, mas por necessidade. “Minha visão tem defeitos, meu cérebro inventa coisas que não existem, principalmente à noite. Meus quadros e fotos abstratos são arbitrários e questionam por si mesmos.” Fotógrafo modernista, pintor contemporâneo e criador de histórias fabulosas, Carneiro agora é revisto por completo. E, inventor bem-humorado, dá ao leitor o seguinte conselho: “Se eu não falei algo, você pode inventar”.
quinta-feira, 16 de julho de 2009

copacabana*

“Copacabana é aquele bilhete que você, totalmente de ressaca, encontra no bolso da calça de manhã. O bilhete da garota com quem você trombou ontem numa festa. E você sabe que ela é encrenca (...)”.

Com estas palavras Mário Bortolotto apresenta o álbum Copacabana (Ed. Desiderata, R$40, 200 págs), desenhado por Odyr e roteirizado por Lobo, ambos remanescentes da revista Mosh. No livro, o submundo do famoso bairro carioca é tratado com sinceridade. Prostituição, drogas e crimes dão o tom da narrativa, apresentada em imagens em preto e branco, tão borradas e agitadas como as próprias personagens.

No enredo, a prostituta Diana é conhecida no calçadão do bairro. Usa o xaveco de sempre pra conseguir clientes. E diz pra mãe que é enfermeira. Labuta diária e forte, que se torna ainda mais dura quando ela se envolve, não diretamente, no assassinato de um gringo cheio da grana. Mas, no meio da confusão, ainda sobra tempo pro amor. Como ela consegue?

Na cidade que é fantasia, o cartão postal oferece sexo, drogas e samba. Lobo e Odyr oferecem ao leitor muito mais. Um olhar direto sobre uma realidade que existe nas esquinas daqui ou de lá. Existe, mas passa despercebida por aqueles que dormem antes da meia noite e não ouvem o barulho das sirenes ou não vêem o piscar dos neons dos night clubs.

No baixo Augusta, em São Paulo, em Copacabana, no Rio, ou nos red lights districts ao redor do mundo, existem centenas de Dianas. E cada uma delas, com uma história pra contar. A dupla sabe disso e se inspirou para traduzir, de maneira coerente, esse universo de diversão e sofrimento. Se Copacabana, o bairro, é encrenca, Copacabana, o livro, é prazer. Ou vice-versa?


* Coluna originalmente publicada no site Impulso HQ
quarta-feira, 1 de julho de 2009

diário de um banana 2 *

* Texto publicado orinalmente no site Impulso HQ. Agora tenho uma coluna semanal lá tbm!


Esta semana quero falar de um livro bem divertido. Não chega a ser uma história em quadrinhos, mas é como se fosse. Diário de um Banana (Ed. V&R, 224 págs. R$ 32) já está em sua segunda edição no Brasil e é um mistura inteligente e bem humorada de HQ com diário, escrita e ilustrada pelo americano Jeff Kinney.

A personagem principal é Greg Heffley, um garoto magrelo que é um daqueles geeks perseguidos no colégio. Cada livro se passa em um ano da escola. Greg só tem um amigo, o Rowley, que ele praticamente despreza. Mas, fazer o que? É o único que ele tem!

Por meio das anotações e desenhos feitos em seu diário, conseguimos entender o que se passa na cabeça de um adolescente que, praticamente sozinho, tem que enfrentar essa fase tenebrosa.

O tema pode parecer batido, mas Greg tem umas sacadas boas. Consegue enxergar seu ambiente com esperteza, sem deixar a ingenuidade de lado. Os desenhos de Kinney são praticamente amadores e se encaixam perfeitamente na estrutura de diário proposta por ele.

Este segundo volume, que chegou este mês às livrarias, tem um coadjuvante de peso. É o Rodrick, o irmão mais velho do Greg, que – óbvio – é um puta mala. Daqueles que é melhor ter como inimigo. O problema é que o Rodrick descobre um segredo do irmãozinho e vai cobrar caro pra manter a discrição.

No Brasil, a série está um pouco atrasada, já que nos Estados Unidos ela se encaminha pra quarta edição. Mas no site do autor dá pra acompanhar um blog e saber de outras novidades relacionadas ao personagem.
Risadas garantidas!
terça-feira, 30 de junho de 2009

um leitor incansável*

* Matéria publicada na CartaCapital número 550. A biblioteca já está no ar! Acessem!

Em meio aos quase 100 mil títulos da biblioteca do empresário e colecionador José Mindlin está um trabalhador acuado. Envolvido pela maior coleção particular do País, segura cuidadosamente um livro. Lê, escaneia e vira página por página, com delicadeza e rapidez. Há quase dois meses repete incansavelmente a rotina. Por suas mãos já passaram exemplares raros, originais de Machado de Assis, José de Alencar e Joaquim Manoel de Macedo. Sermões do Padre Antônio Vieira ou gravuras de Jean-Baptiste Debret. Edições raríssimas, todas fora de catálogo ou praticamente inéditas no País, reunidas por José Mindlin desde os 13 anos de idade.

Tamanho cuidado e precisão são necessários. O trabalho delicado é o passo inicial para a realização do projeto de digitalização da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, acervo de quase 17 mil títulos que pertencia ao bibliófilo e foi doado à Universidade de São Paulo em 2006. Esta pequena, porém suntuosa, parte de seus livros, antes restrita, ganha lugar na internet a partir da semana que vem. O trabalhador citado anteriormente, responsável pela transferência das obras para o computador, é um robô de Nova York.

Inédito na América Latina, o Kirtas APT 2.400 BookScan custa cerca de 220 mil dólares e foi uma aposta da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp), que doou o equipamento à universidade e trabalha em parceria com ela. Especializado em digitalização de livros encadernados, o scanner robotizado é capaz de ler 2.400 páginas por hora. Um livro de 300 páginas, por exemplo, pode ser transferido para um computador em meros oito minutos.

Uma vez digitalizado, o conteúdo do livro é acessado pela equipe de pesquisadores e operadores da USP por meio de soft-wares livres e customizados. O grupo organiza o material para disponibilização on-line em uma página com acesso irrestrito. Assim, mapas, manuscritos, gravuras e textos antigos passam a ser propriedade não só da universidade, mas de quem quiser, gratuitamente, em casa, imprimir, copiar ou consultar os arquivos. Selecionar, recortar e buscar palavras em textos, da maneira que lhe for apropriada. Sem pagamentos ou senhas, o acesso a obras de domínio público que, normalmente, pouco são tocadas nas prateleiras das bibliotecas tradicionais, torna-se universal.

O projeto é grandioso e pretende atingir não só a Brasiliana de Mindlin, mas outras bibliotecas da universidade, como as dos cursos de Direito e Filosofia. A fase atual é de experimentação. A partir da próxima semana, estará disponibilizada uma pequena amostra, cerca de 5 mil títulos, do que poderá ser um dos maiores acervos on-line do mundo. O endereço digital (http://brasiliana.usp.br/) será lançado durante o Seminário Mindlin 2009, que acontece entre os dias 16 e 18 de junho no Museu de Arte de São Paulo. Entre os convidados estará Beatriz Haspo, responsável pela divisão de coleções, acesso e empréstimo da exemplar e monumental Biblioteca do Congresso americano. Jean- Claude Guedón, professor da Universidade de Montreal, no Canadá, vem para falar sobre as políticas de digitalização, assunto no qual é considerado uma autoridade.

Coordenada pelos historiadores e professores da USP István Jancsó e Pedro Puntoni, a Brasiliana Digital tem a ambição de se equiparar aos grandes acervos mundiais. “Esta revolução tecnológica, a digitalização robotizada, tem permitido um ganho de velocidade de processamento. A técnica está por trás dos grandes projetos internacionais, como o Google Books”, diz o professor Puntoni, citando o bem-sucedido modelo de acervo on-line gratuito pertencente ao maior site de buscas do mundo.

“A ideia do projeto é tornar a vida do usuá-rio mais fácil. Esta versão é um teste, mas queremos receber os comentários e aperfeiçoá-la, deixá-la mais estável. A inclusão digital não pode servir só para navegar no Orkut”, afirma Puntoni, diretor da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. A fase piloto, que se estende até 2010, pretende disponibilizar cerca de 10 mil títulos.

A importância do empreendimento vai além da pesquisa. O conteúdo deve ser entendido como instrumento para fortalecer a educação nacional, já que pode auxiliar na produção de material didático para todos os níveis escolares. Serve ao nível fundamental da mesma maneira que pode auxiliar as análises avançadas na área de humanidades. “É um acervo em crescimento, estendido a todos os que tiverem interesse e conexão”, diz o professor Jancsó.

A consulta irrestrita via web a material bibliográfico tão vasto ajuda, sobretudo, a manter duas funções fundamentais de um acervo, o acesso da população ao conteúdo e a preservação histórica. Ironicamente, essas funções tendem a se chocar. Como permitir o manuseio de conteú-do tão raro e ao mesmo tempo conservá-lo em perfeitas condições? Muitas vezes, por se preocuparem mais com a segunda função, bibliotecas restringem o acesso a preciosidades. Um toque descuidado, um pedaço amassado ou um risco sobre o papel podem destruir peças de valor cultural e financeiro altíssimo.

Assim como obras de arte, muitos livros conservados ao longo dos anos se transformam em objetos para ser vistos, não tocados. A tecnologia, que reproduz o livro em fac-símile virtual, anulará esse impedimento. “Em termos de solução técnica, é o que há de mais moderno. Queremos chegar em 2012 com 100 mil objetos digitais de toda a universidade”, almeja o professor Jancsó.

A casa de Mindlin é, contudo, uma estada temporária para o equipamento. Já está em fase de construção, dentro do campus da USP, o prédio que abrigará a coleção, também de acesso irrestrito. O projeto, assinado pelo neto de Mindlin, Rodrigo Loeb, foi pensado para abrigar os 17 mil títulos em três grandes andares cir-culares. Destaque de protagonista à coleção. Laboratórios e centros de pesquisa voltados à área de preservação também devem ser instalados ali. Formarão a nova moradia do trabalhador robô, que deixará a biblioteca pessoal de Mindlin.

O bibliófilo de 94 anos maravilhou-se com a tecnologia no centro de sua sala. “Realmente, não tinha pensado que chegaria a esse ponto”, diz. “O que está sendo feito aqui é só o começo de um processo bastante longo e interessante. Mas duvido que, na idade em que estou, possa ver o projeto concluído.”

Se plenamente concretizada, a Brasiliana Digital poderá ser modelo de uma futura estrutura nacional, que interligue instituições públicas e privadas. Além de dar ao Brasil posição de destaque no meio, resgatará aos brasileiros parte da história da literatura que pode não estar esquecida, mas, por certo, muito longe da acessibilidade.
segunda-feira, 1 de junho de 2009

sábado dos meus amores, de quintanilha

A paixão de um senhor de periferia pelo time do coração, os bastidores de um jogo de cartas num circo de interior ou o azar de um operário no bolão de loteria da fábrica. São temas como estes que permeiam as narrativas, bem brasileiras, que formam Sábado dos meus Amores (ed. Conrad, 64 págs, R$39), do quadrinista Marcello Quintanilha.

A HQ traz seis pequenas histórias e já na primeira delas o autor parece anunciar certo tom de crônica presente em toda a obra. Para isso, usa como personagem um distraído Rubem Braga, que segue uma borboleta amarela, enquanto cruza uma avenida, no Rio de Janeiro de 1952. Quintanilha, fã do escritor capixaba, também aproveita, em outros momentos, humor e lirismo quando narra a paixão do brasileiro por futebol ou o amor de uma moça por um jangadeiro nordestino. Esta última, um saboroso enredo, sutil e ingênuo.

Quadros escuros e com cores fortes são trabalhados em grafite e aquarela, técnicas distintas que utilizadas em conjunto fazem um bonito jogo de sombras, dando às imagens, e principalmente aos personagens, brilho especial. Na tentativa de explorar ainda mais os inúmeros tipos que protagonizam as páginas, Quintanilha deu aos balões de diálogo diferentes formatos. Normalmente rígidos, recebem atenção especial como se espelhassem o sotaque distinto de cada região.
quarta-feira, 13 de maio de 2009

os brasileiros, de andré toral

Antropólogo e historiador por formação, o desenhista André Toral, encontrou nas histórias em quadrinhos uma maneira de juntar profissão e lazer. Seu último trabalho, Os Brasileiros (Conrad, 88 págs, R$38), reúne sete histórias que narram episódios da trajetória indígena, desde a colonização até hoje. Usando diferentes técnicas, Toral trabalha o colorido ou o preto e branco. Narra o choque entre civilizações, mas, sobretudo, dá ao índio o lugar de protagonista. “Quero tirar os índios da posição de vítima da história”, disse o autor. Conversei com ele por telefone e segue aí parte do nosso papo.


Camila Alam: Muitas das histórias de Os Brasileiros mostram uma civilização guiada pelo canibalismo e vingança. São características de uma época ou uma imagem estereotipada?
André Toral: O canibalismo é um tema que se impõe. É o principal traço do comportamento dos habitantes do Novo Mundo, notado por cronistas e viajantes. É também uma forma de vingança. As tribos tinham um complexo ritual de vingança e tentei girar em torno disso. Quis abordar também outro ângulo da conquista. Não podemos só vê-la como uma guerra de brancos contra índios, mas também, e muitas vezes, de índios contra índios. Quero tirar-los da posição de vítima da história e dar a eles caráter de protagonistas.

CA: Você cita na conclusão do livro que a sua formação como antropólogo não influencia nas suas histórias. Tem certeza?
AT: Na verdade, não quis fazer estas histórias como se fosse tese. Tenho medo de que elas virem muito “papo cabeça”. Quero que as pessoas leiam com interesse de leitor de quadrinhos, muito mais do que intelectual. É pra ser divertido. Sou antropólogo sim, mas estas histórias são frutos da minha imaginação, ela é o fio condutor. Todas têm muito de criação literária. Na podemos nos esconder por trás de uma falsa objetividade. A minha história tem autonomia dentro da História. Pretendo ser claro como a noite.

CA: Porque seu traço varia tanto de uma narrativa para outra?
AT: A mais antiga, fiz em 1991, e a mais recente, em 2008. Acho que aprendi a desenhar. Aos 50 anos, faço tudo melhor do que eu fazia antes. Menos enxergar de perto. Deixei de ter timidez. Eu achava que todo desenhista precisava usar nanquim. Mas depois reparei que eu podia scanear o lápis. Essa mudança técnica, aparentemente boba, me permitiu manter no desenho a “mão mole” que o lápis dá. Errou, apagou, não tem drama. A parte que eu mais gosto é a coloração com aquarela. Penso menos e parece que a mão caminha automaticamente.

CA: E porque trabalhar com enredos curtos e autobiográficos? [Em A Alma que caiu do corpo, o autor conta em apenas uma página uma de suas experiências com lendas indígenas].
AT: Eu me coloco lá. Alguém já falou que o difícil é fazer cenas do cotidiano. Não costumo fazer isso, mas achei divertido. Se existe um caminho que gostaria de traçar a partir de agora, é este. Aproximar as histórias do meu dia-a-dia.

CA: Você é daqueles que anota tudo que acontece a sua volta, para uma eventual história?
AT: Eu sou o homem dos papeizinhos. Guardo tudo, mas eles nunca são muito bons. Valorizo a primeira idéia, mas ela não é nada sem trabalho posterior.
quarta-feira, 6 de maio de 2009

história do lance!, por mauricio stycer

O lançamento do jornal esportivo Lance!, em 1997, marcou a mídia nacional. Quando surgiu, havia um vácuo de quase vinte anos em que nenhum diário de grande porte era criado no país. Parte de sua trajetória e conjunturas de sua formação são narradas em História do Lance! (Alameda, 320 págs, R$46), do jornalista Mauricio Stycer, integrante da equipe que iniciou as atividades do periódico, há 12 anos. O lançamento do livro acontece hoje, em São Paulo, no bar Canto da Madalena.

Ativo no projeto durante os primeiros oito meses, Stycer guardou daquela época material que o levaria a começar uma pesquisa, posteriormente transformada em dissertação de mestrado pela Universidade de São Paulo. “São recordações muito ricas que me chamaram atenção na época, porque tinham uma importância histórica. Representava o inicio de uma retomada de investimento em mídia no Brasil”, diz o jornalista, ex-redator chefe de CartaCapital e hoje repórter especial do IG.

Mais do que uma grande reportagem, História do Lance! alia a pesquisa empírica ao estudo mais profundo de um período de mudanças na mídia nacional. “Não tenho ambição de contar a história definitiva, mas sim uma história da maneira como vivi, interpretei e estudei”, diz.
segunda-feira, 27 de abril de 2009

verão índio

A junção de dois mestres das histórias em quadrinhos italianas chega ao Brasil este mês, com longos 22 anos de atraso. Verão Índio (Conrad, 152 págs, R$ 49,90), lançada originalmente em 1987, alia o roteiro de Hugo Pratt aos desenhos de Milo Manara e foi considerada uma das HQ’s mais importantes do século XX.

Nos Estados Unidos do século XVII, uma garota de um vilarejo puritano é atacada sexualmente por dois indígenas. O episódio é mostrado nas primeiras dez páginas e a ausência de diálogos intensifica a maestria de Manara ao ilustrar cenas de impacto. Depois do ocorrido, a guerra dos nativos contra os colonos europeus ganha força, envolvendo uma pequena família de renegados, que vive perto do vilarejo. A história do clã acaba por servir de pano de fundo para Pratt construir no roteiro a identidade de uma nação em formação, narrarando episódios de selvageria, incestos e abuso de poder.

O característico traço de Manara, considerado o mestre do quadrinho erótico, dá vida a personagens sensuais, homens robustos e mulheres cheias de curvas. Mas além de chamar atenção pela conotação sexual, o estilo de Manara é permanente nas cenas de guerra ou paisagens, compostas por cores fortes que se tornam ausentes quando são narrados flash-backs. Pelo enredo e produção, Verão Índio se torna um exemplar essencial para os apreciadores do estilo.
quarta-feira, 22 de abril de 2009

budapeste, o filme, também é pálido


As atenções voltam-se para Chico Buarque durante este mês. Budapeste, seu romance publicado em 2003, chega aos cinemas hoje, praticamente ao mesmo tempo em que as livrarias recebem seu novo livro.

Nos primeiros minutos do filme, o protagonista José Costa (Leonardo Medeiros) revela sua percepção sobre a cidade húngara, que não é cinza, mas amarela. O longa-metragem, dirigido por Walter Carvalho, também é pálido. Medeiros dá vida a um ghost-writer que aterrissa por acaso em Budapeste trazendo na bagagem infelicidade e dúvida. O encantamento com a língua e o lugar aflora quando conhece Kriska (Gabriella Hármoni), com passa a dividir a vida, durante a curta estadia. Mas a paixão parece não convencer o espectador e Costa ainda aparenta estar infeliz, como quando deixou a mulher (Giovana Antonelli) e o filho, no Brasil.

A vasta experiência de Walter Carvalho como diretor de fotografia (em filmes como Central do Brasil e Carandiru) rende bonitas paisagens, como a que o protagonista se depara em sua chegada à cidade, quando uma enorme estátua do líder soviético Lênin atravessa seu caminho flutuando sobre o Rio Danúbio num cargueiro. O ator Paulo José, na pele de um advogado de tipo excêntrico, acaba por roubar a cena em seus cinco minutos de aparição.
segunda-feira, 30 de março de 2009

ensinamentos de josé mindlin




Dono de uma das mais importantes bibliotecas particulares do Brasil, José Mindlin, já narrou sua paixão por livros em documentários e reportagens. Mas agora direciona a palavra àqueles que, por algum motivo, não se vêem tão interessados pela leitura.


Em No mundo dos livros (Ed. Agir, 104 págs, R$ 29,90), o terceiro de sua autoria, Mindlin conta o inicio de sua trajetória como leitor e colecionador, tentando, de certa forma, ensinar seus passos. “A leitura dá um sentido espiritual à vida, abre horizontes, dá uma visão melhor e mais ampla do mundo e da sociedade em que vivemos, estimula a imaginação e o sonho. Sem ela não seria o que eu sou”, ele diz em um dos capítulos.


Em tom coloquial, Mindlin conversa diretamente com o leitor e por vezes questiona “Não concorda? Espero que sim!”. Com 95 anos, ocupante da cadeira número 29 da Academia Brasileira de Letras, o autor dá dicas de leitura e de como montar uma biblioteca, seleciona e descreve algumas de suas obras preferidas. Algo difícil de fazer, dada à quantidade de peças já lidas por quem desde cedo coleciona raridades.


Em uma das passagens, Mindlin narra um episódio que o deixou constrangido. Ainda criança, sem saber ler, foi flagrado pelo pai, ao lado da estante, com um livro aberto. Sussurrava e ao ser indagado, respondeu “Estou lendo”. Chegando próximo ao menino, o pai percebeu que o livro estava de cabeça para baixo. “Fiquei encabulado e a lembrança permaneceu viva até hoje... Mas foi a última vez que uma coisa assim me aconteceu”, diz.


Aos 13 anos, quando começou a freqüentar os sebos do centro de São Paulo, trocava correspondências com editoras estrangeiras à procura de volumes antigos. Mindlin diz ter encontrado nos livros fies amigos imaginários. Daqueles que não reclamam, “mesmo que tenham ficado na estante durante anos seguidos sem serem tocados”.
quinta-feira, 26 de março de 2009

osgemeos e titi freak: grafite em novos suportes



Quem vive nas grandes cidades está acostumado a passar por viadutos, muros e vielas grafitados. O que os olhares menos aguçados podem não perceber é que o coadjuvante das ruas vive um momento de ator principal, fora das selvas de concreto. A chamada street art toma cada vez mais outros ambientes, é criada em torno de novos suportes, avança sobre novas mídias. Em suma, sofisticou-se, sem perder a característica transgressora.



Em cartaz, no Rio de Janeiro, a partir do dia 23, os já reconhecidos irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, que assinam como osgemeos, são um dos exemplos da bem sucedida transposição. Os paulistanos obtiveram reconhecimento em galerias estrangeiras para depois colher frutos em terras tupiniquins. As fachadas da galeria Tate Modern, em Londres, e do castelo Kelburn, na Escócia, são exemplos grandiosos de que a linguagem dos becos do bairro do Cambuci é universal.


Em sua nova mostra, Vertigem, em cartaz no CCBB carioca, suas obras transformam-se em instalações, onde o visitante pode interagir, ouvir, tocar (instrumentos, inclusive) e se transformar em parte atuante. “A partir do momento em que tiramos nosso trabalho das ruas e levamos ao museu, já não é grafite. É arte contemporânea, tridimensional”, diz Gustavo Pandolfo, em entrevista concedida a mim por telefone.

Além de mover a arte das ruas para as galerias, outro paulistano ganha destaque nas próximas semanas com o lançamento do livro Freak (Ed. ZY, 200 págs, R$ 50). Hamilton Yokota, que atende por Titi Freak, é um dos importantes artistas que formam a cena do grafite nacional. Largou o traço e a profissão de cartunista quando descobriu os sprays e, de lá pra cá, deixou sua marca em exposições e muros da Europa, Estados Unidos e Japão.

Sob forte influencia pop nipônica, Titi Freak tenta trazer o ambiente das ruas também para as galerias, utilizando suportes como placas, garrafas e janelas velhas. “O grafite sempre foi das ruas, nunca esperava parar nas galerias. Mas isso foi uma conseqüência dos trabalhos que começaram a ficar mais profissionais. É sempre um experimento trabalhar com outros materiais”, diz.

Em seu livro, lançado em parceria com a galeria Choque Cultural e a loja Nike Sportswear, pouco se lê sobre sua história. Mas a bem sucedida trajetória é explicada por meio de desenhos, esboços e fotos de trabalhos realizados desde a época em que trabalhava para os estúdios de Mauricio de Sousa. “Como pintor, quis contar com imagens a minha transição dos quadrinhos para o grafite e a minha chegada as galerias. Se eu fosse escritor, escreveria mais”, brinca.
Semana passada, teve o lançamento do livro lá na loja da Nike Sportswear, na Praça Omaguás, em Pinheiros. Mas a Livraria Pop, também em Pinheiros, realiza amanhã (sexta-feria, dia 27) uma sessão de autógrafos com o Titi Freak.
O cara é uma simpatia, vale a pena dar uma passada por lá, levar um exemplar pra casa e apoiar a nossa arte de rua! O evento começa a partir das 19h e a Livraria POP fica na Rua Dr. Virgilio de Carvalho Pinto, 297.
Fotos: Divulgação (clique para ampliar)